sábado, 22 de agosto de 2020

A CAVEIRA DO YAMAGIRI MARU - TRUK LAGOON

 Olá amigos do Blog. Estava em Truk Lagoon, Micronésia. Todos vocês sabem que esse arquipélago foi uma poderosa base japonesa durante a II Guerra Mundial, sendo bombardeada à extinção pelos americanos em 17 Fev 44. Muitos navios e aviões foram para o fundo da laguna e, atualmente, Truk é a capital mundial dos naufrágios.

A manhã tinha sido proveitosa pois havíamos mergulhado em um torpedeiro Nakajima B6N Tenzan “Jill” e no submarino I-169. A tarde fomos explorar o naufrágio do Yamagiri Maru, um belo paquete misto com 6.438 t de deslocamento e medindo 134 m de proa a popa. Quando do ataque, o infeliz Yamagiri foi metralhado e recebeu 2 bombas, afundando de popa, envolto em prodigiosa coluna de fumaça negra.  Doze tripulantes pereceram com o navio.

Alcançamos o paquete deitado sobre o costado de bombordo, a 30 m de profundidade.  Comigo estavam os dois guias, o inglês Patrick, e o meu dupla, o português Luis Mota. Havia muita vida no ferro, um festival de gorgônias, conchas zig-zag, esponjas, corais vermelhos, brancos e azuis. 

Penetramos o porão nº 5. Era enorme! Escuro! Havia uma pilha desordenada de colossais granadas de artilharia naval, calibre 356 mm, munição empregada pelos canhões dos encouraçados da classe Kongo. Sinalizei ao guia Tomo (havia apelidado ele de Dança-com-Lobos e o apelido tinha colado). Na véspera, ele tinha me dito que existiam nos naufrágios muitos restos humanos. Ah,  que Truk era um imenso cemitério de guerra e cada naufrágio, uma sepultura submarina. Eu até então não tinha visto nada. Por sinais, o guia falou:

-- Néster, vem comigo que vou te mostrar uma coisa. Respondi ok e penetramos o casario do navio. Nadamos os dois por um labirinto, onde pairava uma tênue névoa amarronzada, de meter medo.  Maldição! Minha curiosidade terminou rapidamente e, em seguida foi a coragem que vazou. Pelo caminho fomos envolvidos por uma escuridão tão intensa que quase se podia cortá-la à faca. Já o meu ânimo, há muito tinha sido roubado. Com o canto do olho reparei que a luz mortiça, minha referência, que indicava a escotilha por onde tínhamos entrado, estava sumindo; um calafrio. Senti que estávamos no coração sombrio do Yamagiri e já não sabia como voltar sozinho.  Mesmo assim, apesar da preocupação, continuamos avançando. No teto negro, entre franjas de vegetação marinha apodrecida, vi  um bolsão de ar aprisionado, sinal da passagem de outros mergulhadores. Sensação ruim de pensar que a minha vida dependia de outra pessoa. Penetramos então em um outro compartimento onde havia uma massa inextricável de ferros torcidos, cabos e enroscos, parcialmente iluminados pela lanterna do guia. Cheguei a sentir na boca o gosto de ferrugem e água salgada. Dança-com-Lobos então focou alguma coisa engastada entre os ferros do teto.

 Por Cristo! Era uma caveira e alguns ossos! Ela era marrom, ferrugenta, as órbitas estavam preenchidas com um lodo negro. Quem seria? Pobrezinho. Talvez este  marinheiro  tivesse sido colhido pela morte ao cumprir uma ordem, ao fechar alguma escotilha ou ao socorrer um camarada. Ali estava toda a indecência da guerra, o seu desperdício e sua inutilidade.

Pensei muito neste fato quando nadamos de volta à superfície. Dança-com-Lobos, à frente, parecendo divertir-se, enquanto eu, meio embasbacado, olhava as pontas dos dedos, brancas, como se não houvesse uma gota de sangue nelas. Que história!

Este relato completo e emocionante, é capítulo no livro De Truk a Narvik



Nadando da escuridão para a luz: um grande alívio 

 


Nosso guia em Truk, o experiente Tomo a quem apelidei de Dança-

com-Lobos




                   Ali estava toda a indecência da guerra, sua inutilidade e desperdício




Granadas de 356 mm espalhadas em desordem pelo porão




cavaleirodasprofundezas@gmail.com

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul, Porto Alegre. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB), mergulhador CMAS** com quatro especializações, Submarinista Honorário da Marinha do Brasil e recebeu a Medalha do Mérito Tamandaré. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Hawaii, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal e Mar Vermelho.

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