sexta-feira, 19 de junho de 2020

MERGULHO EM UMA LANCHA MAS - MALTA

Olá amigos do Blog. Vamos deixar um pouquinho a Normandia. Depois eu volto. Estava em Malta para mergulhar e explorar naufrágios da II Guerra Mundial. Tinha o eficiente apoio da operadora Cresta Dive Centre (é Centre mesmo e não Center) e, conversando com o Jeffrey, capitão do nosso inflável, fiquei sabendo que a menos de dois quilômetros ao largo do Grande Porto, havia uma lancha torpedeira alemã no fundo do Mediterrâneo.
Meu Deus, mergulhar em uma Schnellboot seria a glória suprema. A consagração. Pensei.
- Néster, este naufrágio está a 73 m de profundidade. Ainda tem um torpedo intacto no tubo de BB. Está inteiro. Falou o Jeffrey.
Mas isto é muito fundo para o meu nível de mergulhador CMAS**.
Mas...mas...alcancei 51 m no San Francisco Maru em Truk Lagoon. Além disso, senti que talvez pagando, estes caras poderiam me levar na Schnellboot.
Seu idiota, 51 m não é 73 m e além disso mergulhar no San Francisco Maru não foi nada fácil. Meu tempo de fundo naquela ocasião foi de somente 10 minutos e tive que fazer prolongadas paradas de segurança antes de chegar à superfície. Pensei.
Maldição, não era para mim. Então, com o coração sangrando, desisti. Prevaleceu o bom senso no lugar da paixão.
O capitão vendo a minha tristeza, rápido, atalhou:

- Néster, sei de uma MAS a só 35 m. Isto mesmo, uma MAAAASSS, lancha torpedeira italiana da famosa 10ª Flotilha, afundada em combate em 26 Jul 41.

- Minha nossa, negócio fechado! Vamos lá. Falei.

No dia seguinte o Mediterrâneo nos recebeu com um azul cintilante, liso como um lago. O meu guia foi o Raymond Casey e atingimos o assoalho marinho a 35 m. A visibilidade eras excepcional, a corrente nula e a temperatura da água de 21 °C. Alcançamos um fundo arenoso, com anêmonas cabeludas e tufos de algas mortas, repleta de destroços e enroscos perigosos. Era um pequeno naufrágio desmantelado. Parecia ser realmente uma lancha. Vi um tubo lança torpedos, restos de um motor, placas de metal enferrujadas, cabos, madeira apodrecida, um estojo de 75 mm e outro de 127 mm (mas como uma lancha poderia transportar armamento tão pesado). Contudo, na aparência geral, não parecia ser uma lancha italiana. Remexendo nos destroços descobri um canhão Bofors 40 mm, armamento que poderia ser encontrado na popa de uma lancha americana. Então esta MAS era na verdade um PT Boat! Uma embarcação americana. Só podia ser. No inflável, quando do nosso retorno, comentei o fato com o Jeffrey e o Casey mas eles também tinham dúvidas. MAS (Motoscafo Armato Silurante) ou PT Boat, o que realmente seria? Então o naufrágio ficou por lá, como túmulo de guerra, até ser dissolvido pelo tempo. Que história!

Esta jornada completa está no livro De Guadalcanal a Creta.

Reserve o seu exemplar pelo e-mail ulissess18@yahoo.com.br


Minha Schnellboot na escala 1/35 lá em casa

Lancha MAS na escala 1/35

Seguindo o cabo da boia até o naufrágio

Aparecem os destroços em um fundo arenoso a 35 m


Parte do passadiço da embarcação

PT Boat com canhão Bofors de 40 mm na popa

No inflável de apoio com o guia Casey. O Mediterrâneo liso como um lago

No tubo lança torpedos

Com um estojo de canhão, arma que uma lancha torpedeira não teria como armamento

O capitão Jeffrey lança o cabo-guia sobre o naufrágio

O canhão Bofors de 40 mm

Retorno à superfície. Antes, parada de segurança a 5 m


domingo, 14 de junho de 2020

MUSEU DOS NAUFRÁGIOS DO DIA D - PORT-EM-BESSIN - NORMANDIA


Olá amigos do  Blog. Hummm, o assunto continua a ser o Desembarque na Normandia. Ainda é o fato do momento. Estava em Port-Em-Bessin, conhecendo o Musée Des Épaves Sous-Marines Du Débarquement, simplificando: o Museu dos Naufrágios do Dia D.O acervo é bem interessante. Constituí-se em centenas de objetos que foram resgatados das profundezas nas cinco praias do desembarque a partir de 1970. É um museu privado, com entrada paga como todos da região. Boa parte do material, tanques Sherman DD, Stuart, obuseiro AP Priest, âncoras, lemes, motores, minas, granadas de grosso calibre, etc, estão em exposição numa área externa. Já no interior do prédio, podemos encontrar armas de infantaria, uniformes, capacetes, ferramentas, binóculos, e até a roda de um C-47 e um torpedo. Havia ainda um pequeno auditório onde em uma tela grande de tv, passava um filme com cenas do salvamento deste material no Canal da Mancha.

Havia começado a fotografar o acervo interno quando se aproximou um francês, funcionário do museu, e disse que era proibido fotografar. Fiz que não entendi e continuei fotografando. Ele voltou e irritado, ordenou que parasse com as fotos imediatamente.
- La photographie est interdite! Gritou.
Mas como não registrar tudo aquilo? Interrompi as fotos por alguns minutos e fui olhar a tela onde agora passava um ataque noturno da Luftwaffe à cabeça de praia. Voltei a fotografar e de imediato o cara veio direto. Estava furioso. Na tela continuava o ataque da Luftwaffe, enquanto na minha frente, o sujeito tinha também um ataque, mas de nervos. Ainda consegui fotografar o torpedo e a roda do C-47, mas para evitar um atrito maior, encerrei discretamente minha visita a este excelente museu. Que história,
Área externa de exposição

Lado direito de um obuseiro 105 AP M7 Priest

Torre de um tanque Sherman

Canhão Oerlikon AAe 20 mm

Torpedo em exposição na área interna do museu

Objetos diversos na área interna

Tanque Sherman DD

Leme e mecanismo de uma embarcação de assalto

Reboque americano

Canhões navais e ao fundo uma mina de ancoragem

Os dois hélices de um Shermann DD

Um tanque leve Stuart

Obuseiro 105 mm AP M7 Priest

Roda de um C-47 que lançou paraquedistas no Dia D


quarta-feira, 10 de junho de 2020

CONHECENDO AS PRAIAS DO DESEMBARQUE ALIADO DE...TÁXI


Olá amigos doBlog. Estava em Arromanches, Normandia. Era a minha primeira vez e planejara conhecer as cinco praias do Desembarque do Dia D, Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword. Fiquei hospedado em um simpático hotelzinho chamado Hotel Le Mulberry, local equidistante das atrações que queria ver. Fui alugar um carro em Bayeux, achei que seria fácil. Era alta temporada e havia magotes de turistas japoneses por toda a parte. Tinham alugado todos os carros em Bayeux. O mesmo fato aconteceu em Caen. Nada disponível.

Voltei preocupado, desmoralizado para o hotel. Como era possível vir de tão longe e não conseguir conhecer tanta história militar que havia naquela região, por toda a parte? A dona do hotel, Aline, vendo o meu desalento (acho que ficou com pena de mim), sugeriu:
- Néster, por que tu não pegas um táxi?
- Ora, Aline, seria muito caro, um suicídio para quem viaja com dinheiro contado. Aqui tudo é Euro. Respondi.
- Néster, o hotel tem uma motorista que trabalha para a gente, é um táxi. Queres tentar? Concluiu.
Aceitei, não tinha mais nenhuma opção. Na manhã seguinte apareceu no hotel a Josiane e seu táxi Renault. Começamos a negociar um preço razoável, uma diária que eu pudesse pagar. Com a morte no coração tive que aceitar o valor de 100 Euros, não tinha escapatória. Era pegar ou largar.
Foi a escolha mais correta da minha vida! Josiane havia nascido na Normandia, conhecia absolutamente tudo, praias do desembarque, lojas, museus, campos de batalha, pontes, destroços, memoriais, sebes, cemitérios, monumentos, e por aí vai. Até a velha carcaça de um tanque Sherman destruído em um campo ela me mostrou. Se eu tivesse alugado o carro e feito o tour sozinho, como planejado, iria conhecer muito pouco. Com certeza iria me perder naqueles labirintos de estradinhas, vilas, teias de trilhas e campos.
Desta forma eu conheci tudo! A Josiane me pegava no hotel às 8 h e me devolvia às 18 h. Uma praia e região por dia, durante cinco dias, consecutivos. Um aproveitamento total. No final sobrou até alguns dias e deu para mergulhar nos destroços do porto artificial Mulberry, em Asnelles. Sensacional. Que história!



Com a Josiane na praia de Omaha



sábado, 6 de junho de 2020

TÚMULO DE MICHAEL WITTMANN - LA CAMBE


Olá amigos do Blog. O pessoal gostou bastante desta história das plaquinhas. Tenho outras. Mais "placas", mas desta vez em terra. Fui visitar o Cemitério Militar Alemão de La Cambe, Normandia, um lugar impecável, e, apesar da quantidade de turistas, havia silêncio e respeito. Um sentimento de eternidade admirável. Queria conhecer o túmulo do SS-Obersturmfüher Michael Wittmann, virtuose da arma Panzer, célebre por ter dizimado com o seu tanque Tigre I uma unidade blindada inglesa em Villers-Bogage, em 13 Jun 44. Por esta época, Wittmann já tinha na sua conta 141 tanques e 131 canhões antitanques inimigos destruídos. Reza a lenda que boa parte deste sucesso era creditada a habilidade do seu atirador, Balthasar "Bobby" Woll, que costumava acertar os tanques inimigos com o primeiro tiro. Detalhe fundamental na guerra dos blindados.

Mas como achar o túmulo de Wittmann entre 21.222 sepulturas? Fui na administração do cemitério e perguntei a uma moça francesa:
- Mocinha eu queria visitar o túmulo de...de...de... (como um estúpido, gaguejando, esqueci o nome do Wittmann, deu um branco total na hora).
-Ah, Michael Wittmann!!! Respondeu ela.
-Mas como tu sabes? Perguntei
- Todos que aqui vêm só querem saber dele! Respondeu triunfante.
Então me mostrou um mapa e, como só tinha aquele, mandou eu decorar a localização.
Muito fácil achar. Era o único túmulo com velas, flores, fotos, etc. Que coisa! Ah, a placa, sim, já ia esquecendo. Desta vez era de papel grosso, plastificado e com uma mensagem que eu queria deixar. Detentor da Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho e Espadas, Wittman faleceu em combate no dia 08 Ago 44 mas o seu corpo só foi localizado no verão de 1983. Que história!