sábado, 9 de maio de 2020

O B-24 LIBERATOR DE PALAU


Olá amigos do Blog. Vimos em matéria anterior o naufrágio de um avião não identificado em Vanuatu. Foi um pouco frustrante.

Desta vez estávamos em Palau, um pequeno país insular da Micronésia, formado por oito ilhas principais e que durante a II Guerra Mundial foi base operacional japonesa, local palco de inúmeros combates. Com apoio da eficiente operadora Fish´n Fins, realizamos inúmeros mergulhos em naufrágios da Guerra no Pacífico. Certa manhã, quando íamos fazer nosso primeiro mergulho do dia, navegando rápido entre canais e ilhotas muito verdes, o guia Troy reduziu a velocidade da embarcação e se aproximou de um naufrágio que, apesar da maré enchente, rompia parcialmente a superfície do mar. Na lancha estavam a Beh Valério, minha dupla, e dois americanos muito divertidos, o John Adams e o Robert Palomares. Pulamos na água e fomos explorar o naufrágio. A água estava turva e pouco deu para ver. Entre os destroços aparecia uma asa longa e estreita, e uma peça semelhante ao tubo compressor do P-38 Lightning. Logo o guia nos chamou para bordo e seguimos para o mergulho em um navio japonês que estava adiante.
Retornamos mais tarde pelo mesmo caminho, só que agora a maré estava vazante e boa parte dos destroços afloravam à superfície. Inclusive a pá de uma hélice. Fomos para a água, estava fácil. Tínhamos talvez um metro de profundidade. Agora sim, examinei detidamente. Era uma asa longa e estreita, cheia de furos que eram as casas de centenas de felizes caranguejos. Não era um P-38 e muito menos japonês. A qualidade das junções, rebites, fios de outras partes, eram fruto de esmerado trabalho industrial, detalhes que possivelmente não existissem mais em aviões japoneses por aquela época. Sem identificar o tipo de avião, limitei-me a fotografar tudo.
Já em Porto Alegre, convoquei os amigos plastimodelistas para estudarem o problema. Mesmo sabendo que todo plastimodelista é entendido principalmente em aviação da II Guerra Mundial, demorou aparecer uma resposta convincente. Foi o modelista Neyo Kruze quem resolveu o mistério. Tratava-se de um bombardeiro B-24 Liberator, abatido possivelmente por fogo antiaéreo em 28 Ago 44. O avião era pilotado pelo Capitão Willian G. Dixon e não houve sobreviventes.
Depois da guerra restos da tripulação foram regatados e levados para o Manila American Cemetry and Memorial. Já os corpos de nove tripulantes, inclusive o do Capitão Dixon, foram sepultados no Zachary Taylor National Cemetery, Kentucky. Minha nossa, então aquele naufrágio era uma lápide submarina honrando a memória daqueles homens corajosos. Que história!


B-24 Liberator em exposição no National Museum of the USAF


Ponta da asa emersa na maré vazante

Um dos motores do bombardeiro

Com a maré vazante, boa parte do naufrágio aparece

Nossa embarcação de apoio


Motor, suporte de motor e asa


Cemitério Americano de Manila. Estive lá em 2019 procurando algum registro da tripulação
 


Buraco na asa e suporte de motor
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cavaleirodasprofundezas@gmail.com

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul, Porto Alegre. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB), mergulhador CMAS** com quatro especializações, Submarinista Honorário da Marinha do Brasil e recebeu a Medalha do Mérito Tamandaré. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Hawaii, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal e Mar Vermelho.

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