sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LADY ROOM: MERGULHO NA ESCURIDÃO

Olá amigos.
Abordei em matéria anterior a história do infeliz transporte de tropas americano  SS President Coolidge e também a ação heroica do capitão Elwood, que desembarcou a salvo, mas ao saber que havia alguns soldados a bordo, retornou ao  navio, afundando com ele.
O Coolidge é um dos maiores e mais acessíveis naufrágios do mundo. O Thistlegorm do Pacífico, oferecendo mergulhos eletrizantes, de penetração parcial ou total. Sua proa se encontra a 21 m e a popa, a mais de 60 m. Seu casco colossal jaz sobre o costado de bombordo em uma rampa abrupta, puxado para as profundezas do canal Segond, ilha de Espiritu Santo, pelo peso formidável das mais de 12.000 t de carga que transportava. Com o apoio da Santo Island Dive, realizei quatro mergulhos no navio (poderiam ser dez mergulhos e ainda teria mais coisas para ver), contando sempre com a presença dos guias da operadora: Alfred e David.
Sabia muito bem que na sala de máquinas, a 48 m, existia ainda o telegrafo de ordens com a última mensagem que o Coolidge recebeu antes de topar com o campo minado. Talvez um stop engine. Mais abaixo, estava a piscina e lá na popa, havia um canhão de 127 mm na sua plataforma, além do imenso leme e o nome do navio. O guia havia comentado que o hélice tinha sido resgatado depois da guerra mas o seu eixo permanecia por lá. Atrações tentadoras mas profundas demais para o meu nível de modesto mergulhador CMAS 2 estrelas.
Os primeiros mergulhos na área da proa, foram fáceis. A luz natural penetrava forte ali. No costado estavam algumas panelas, utensílios e formas de fogão de campanha, iguais as que utilizei no meu tempo de Exército. Máscaras contra gases, escotilhas ainda com vidro, muita munição de artilharia e um fuzil Garand .30 M1 bem preservado.
Depois, em outro mergulho, penetramos e exploramos o porão nº1 onde vi um obuseiro de 155 mm, alguns jeeps e caminhões GMC. Na volta, deu para observar um canhão de 75 mm na sua base circular e respectiva munição. Pelo caminho encontrei a âncora reserva, um ventilador e uma máquina de escrever.
Mas tinha algo especial. O Everest para mim. A icônica Lady Room. Figura em alto relevo num painel de porcelana, com cerca de 70 cm de altura, representando uma dama medieval e um cavalo branco. Ela enfeitava a sala de fumantes da primeira classe, a 40 m de profundidade. Um desafio.
Desci com o atilado David. Ele levava um bail out, isto é, um cilindro menor, extra, com ar comprimido para as duas paradas de segurança que iríamos enfrentar no retorno a superfície. Apesar de sempre mergulhar com tranquilidade, estava consumindo perigosamente muito ar.
Penetramos por uma abertura no casco e desde o início fomos envolvidos por uma escuridão densa, só rompida pelos cilindros de luz das lanternas. Uma sensação assustadora, real, de extrema vulnerabilidade, descendo cada vez mais, como se aquele local fosse um poço sem fundo. Lembrei-me do meu mergulho no Yamagiri Maru, em Truk, quando o guia levou-me até um compartimento onde nos espreitava uma avelhada caveira. Arre!
Peixes curiosos nos acompanhavam e em alguns pontos, a luz refletia em bolsões de ar exalado por outros mergulhadores, aprisionados ali ad eternum. Eu respirava normalmente, estava neutro e sem nenhum sintoma de narcose.
Meu Deus! Encontramos a Dama. Momento emocionante. Contudo o flash da câmera sub falhou e tive que me contentar com algumas fotos de má qualidade. Uma pena. Conferi os instrumentos: 40 m de profundidade e a temperatura de 28 °C. Logo iniciamos o longo retorno à superfície. Que história!
Ah, tudo isto e mais detalhes, não poderão serem encontrado nos livros De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta. É matéria para o blog www.cavaleirodasprofundezas.com e, possivelmente, para um novo livro, ainda sem título e data de lançamento. Nestor Magalhães
Cartuchos de 75 mm

Panela de fogão de campanha

Escotilha no costado de boreste ainda com vidro

Grande quantidade de munição de artilharia

Forma do fogão de campanha

Com um fuzil Garand .30 M1 esquecido por um soldado americano em 1942

Máscara contra gases

O guia David "atirando" com o Garand

O guia descendo com o cilindro extra

Canhão de 75 mm na proa do navio

O guia inicia a penetração

Mergulhando na escuridão

Finalmente a Dama Medieval iluminada pelas lanternas

Foto da Lady Room coletada na internet












domingo, 26 de agosto de 2018

O SS PRESIDENT COOLIDGE - ESPIRITU SANTO - VANUATU

Olá amigos do Blog.
O President Coolidge era um elegante navio de passageiros americano, lançado ao mar em 1931 e, inicialmente, operado pela Dollar Steamship Line até 1938. Pouco depois passou a navegar pela American President Lines, até 1941. Podia transportar 988 passageiros com luxo e conforto, singrando o Pacífico nas rotas San Francisco - Kobe - Xangai - Manila. O President Coolidge era enorme, com quase 200 m de proa a popa e deslocando 21.936 t. Muito rápido, podia alcançar a velocidade máxima de 21 kt. Com o início da guerra, a sua primeira missão foi evacuar para os Estados Unidos, 125 feridos graves do ataque japonês a Pearl Habor, Havaii. Já em janeiro de 1942, carregou suprimentos para a Austrália, inclusive com dezenas de caças P-40, com destino as Filipinas. 
Requisitado pela US Navy, foi adaptado com transporte de tropas, recebendo pintura de camuflagem cinza e armamento defensivo como metralhadoras e canhões. Nesta sua nova versão, conseguia embarcar mais de 5.000 soldados, armados e equipados.
Em 26 de outubro de 1942, o SS President Coolidge entrou pelo canal principal que levava ao porto, em Espiritu Santo. Com a ameaça constante dos submarinos japoneses, esta entrada estava protegida por minas de ancoragem, situação que não foi, acidentalmente, repassada ao Coolidge. O enorme transporte então bateu em uma mina que detonou na altura da casa das máquinas, matando o marinheiro Robert Reid. Desamparado, topou com uma segunda mina, desta vez na popa. Era um navio de passageiros, adaptado, sem blindagem alguma no casco; assim, os danos foram graves e o seu capitão, Henry Nelson, pressentindo o desastre, jogou seu navio contra a praia. Houve tempo para que 5.340 soldados desembarcassem em ordem e sem pânico, mas deixando todo o seu material a bordo. O capitão Elwood Joseph Euart, do 103º Reg Art Campanha, foi um dos que chegaram a salvo até a praia, mas retornou ao navio ao saber que havia soldados presos na enfermaria. Elwood resgatou estes homens mas o transporte virou sobre o seu costado de bombordo e naufragou no canal. O capitão foi junto com o navio, constituindo-se na segunda vítima fatal. Seu corpo só foi encontrado por um guia de mergulho em 2013 e resgatado em 2014. Ainda estava com o seu dog tag. Elwood Joseph Euart foi agraciado com a Distinguished Service Cross pelo seu ato de heroísmo. Hoje o President Coolidge é considerado como um dos naufrágios top do mundo, alegria dos mergulhadores de todos os níveis. O Thistlegorm do Pacífico. Sua proa jaz a 21 m e a popa a mais de 60 m. Que história! 

Fatos e a rota do SS President Coolidge em 26 de outubro de 1942

5.340 soldados desembarcaram em ordem e em 90 minutos

O grande navio emborcou sobre o seu costado de bombordo
Desenho do naufrágio com seus pontos de interesse e profundidade

A imagem pelo sonar da situação atual do naufrágio

A dama medieval e o cavalo branco, figura que indica o banheiro feminino, Lady Room, a 40 metros de profundidade, nas entranhas do navio

Capitão Elwood Joseph Euart, 103 º Batalhão de Artilharia de Campanha, Distinguished Service Cross

Dog Tag (plaqueta de identificação) encontrada no corpo do capitão em 2014

Com o guia David, exatamente no ponto onde o navio encalhou em 1942

Memorial nas proximidades da praia






         

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

MERGULHO EM UM JILL E A METRALHADORA TIPO 92

Olá amigos do Blog.
Um dos mergulhos mais gratificantes que realizei em Truk Lagoon, foi no naufrágio de um torpedeiro-bombardeiro japonês Nakajima B6N Tenzan Jill. Já estava programado pelos guias do SS Thorfin, nossa embarcação de apoio, fundeada bem no meio da laguna. E foi com muita expectativa que  caímos na água. Eu sabia que este avião possuía à retaguarda do cockpit, uma metralhadora Tipo 92, flexível, manejada pelo artilheiro, atirando para trás. Queria encontrá-la. Também conhecia que esta arma era uma cópia japonesa da famosa metralhadora Lewis, arma criada pelo coronel Isaac Lewis do Exército Americano em 1911. A Lewis teve uma vida longa. Foi utilizada em ambas as Guerras Mundiais e esteve em ação até na Guerra da Coreia. Os japoneses adoravam simplesmente copiar; era bem mais fácil que criar. Lembro que em 2016, eu vi em um museu militar em Rabaul, uma réplica perfeita da metralhadora alemã MG 15.
Alcançamos o naufrágio a 37 m de profundidade. Nadei neutro em volta do torpedeiro e depois um pouco acima. Absorvia com prazer cada detalhe: a cabine alongada de pilotagem, o focinho maciço que abrigava o enorme motor radial e as asas de largura generosa, destinadas a angariar o máximo de sustentação e suspender o pesado torpedo. Remexendo com atenção o interior do cockpit, encontrei a metralhadora. Mesmo corroída por 68 anos de submersão, permanecia bem preservada. Junto estavam três carregadores alimentados com 97 cartuchos de 7,7 mm. Esta arma, utilizada extensivamente pelos japoneses na Guerra no Pacífico como arma aérea defensiva, tinha um cadência teórica de tiro de 600 por minuto e um alcance máximo de utilização de 800 m. Operava a gás. Toda esta história está no Capítulo V, Mergulho em um Nakajima B6N Tenzan "Jill" do livro De Truk a Narvik - Mergulhando na História. Reserve o seu exemplar pelo e-mail ulissess18@yahoo.com.br.

Confiram as fotos 


O Jill podia transportar um torpedo ou uma carga de bombas. A missão definiu o armamento.


Um infernal fogo antiaéreo da as boas vindas a esse Jill que inicia um ataque.


Adicionar legenda
Um nariz maciço para abrigar o poderoso motor radial Kasei, o cubo e a hélice de quatro pás


No interior do cockpit ainda é possível ver o manche e os pedais da barra do leme

  
Coloquei a metralhadora Tipo 92 e seus carregadores sobre a fuselagem



Carregador tipo tambor horizontal alimentado com 97 cartuchos 7,7 mm


O leme do Jill. Sobre a fuselagem é possível ver a metralhadora e os carregadores




O guia Tomo ocupando o lugar do piloto


Um cartucho de 7,7 mm que estava solto no interior do cochpit



Corrida final para o lançamento do torpedo


Artilheiro em posição de tiro com a Tipo 92. Foto do site WWW.pacificwrecks.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

MERGULHO EM UM AICHI E13A JAKE

Olá amigos do Blog.
Dos 16 mergulhos que realizei nos naufrágios de Palau, com certeza, o hidroavião Jake foi o melhor. Esta elegante aeronave esteve presente nas operações que culminaram no ataque a Pearl Harbor, nas Batalhas do Mar de Coral, Midway e Guadalcanal. Levava três tripulantes sentados em tandem para missões de reconhecimento, resgate, patrulha e operações antissubmarinas. No inicio de 1943, mais de 250 Jake estavam a bordo de cruzadores e encouraçados da Marinha Imperial. Eram lançados através de uma catapulta e, após a missão de reconhecimento, amerissava junto a nave-mãe, quando então era recolhido por um guindaste. O encouraçado Yamato tinha dois Jake em catapultas na sua popa. O naufrágio deste excitante hidroavião, está a somente 15 m de profundidade, sob um fundo de coral e normalmente a visibilidade ali é muito boa. Toda esta história, completa e emocionante, está no Capítulo 4, Palau, no livro De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História. Confiram as fotos.


O cockpit alongado do Jake
O mesmo cockpit visto de cima
O grande motor radial tombado sobre o fundo de coral
Neutro ao lado do posto de pilotagem
Painel de instrumentos
Bordo de fuga da asa esquerda
Foto de Beh Valerio que tornou-se a capa do livro De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História
Bordo de ataque da asa esquerda
Base da antena