quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

ADOLF KANONEN 406 mm SK C/34 - HARSTAD - NORUEGA

Olá amigos do Blog. 
Sempre acreditei que as defesas alemãs na Normandia seriam as mais poderosas e complexas construções da Muralha do Atlântico. Assim como eu, a maioria dos pesquisadores de História Militar também. Ledo engano.
A Noruega com a sua linha costeira recortada por fiordes e milhares de ilhas, abrigava 380 posições robustecidas de aço e concreto, eriçadas de canhões, obuseiros, morteiros e metralhadoras. Uma ameaça real a qualquer tentativa de desembarque por parte dos aliados.
Nas proximidades da cidadezinha de Harstad, na península de Trondenes, Noruega, bem além do Círculo Polar Ártico, ainda pode-se ver a colossal Bateria Theo, mais conhecida como Adolf Kanonen.
São quatro peças de 406 mm, canhões navais, inseridos em casamatas com blindagem em aço de 50 mm de espessura, capazes de girar 360°. Somente um dos canhões, o número 1, pode ser visitado atualmente, com prévio agendamento e a presença do guia Harald Isachsen, velho pesquisador do assunto. O tour custa 1.000 NOK, algo petro de 115 US$, caro como tudo na Noruega, mas que vale cada centavo. A bateria se encontra dentro de área militar controlada pelo Exército norueguês. Somente o tubo desse formidável canhão, pesa 156 t e tem o comprimento de 21,5 m. Impressos na imensa culatra de 3,6 t, estão o número 12 (indica que é o 12° cano fabricado), o ano de 1943 e o código da Krupp. A guarnição da arma era de 68 artilheiros, sendo que 18 deles ficavam dentro da casamata do canhão.
Boa parte do duro trabalho de embasamento em concreto do Adolf Kanonen, foi realizado por prisioneiros russos. Muitos morreram de fome, frio e maus tratos. Na atualidade, há um memorial deles nas proximidades da bateria.
O canhão atirava com três tipos de munição: alto explosiva (AE) com 1.030 kg e alcance máximo de 42,8 km, perfurante de blindagem (AP) de mesmo peso e alcance, e uma granada menor, (AE) com 600 kg e alcance de 56 km.

Sentir a sua massa monstruosa, peso colossal e complexidade mecânica, é uma experiência fascinante. Tudo na arma inspira poder, força e letalidade. Confiram as fotos. Elas valem mais do que muita explicação. Abraço. Nestor
                            Adolf  Kanonen na sua casamata

A casamata vista de frente


            O poderoso eixo central que permite o giro da casamata

O raiamento na alma do canhão ainda perfeito

Porta blindada que dá acesso ao interior do bunker

Outra porta blindada já no interior do bunker

Paiol das granadas de 406 mm perfurante de blindagem (AP)

O guia Harald no paiol das granadas 406 mm alto explosivas (AE)

O guia Harald  indicando os alcances e o recobrimento de fogos de duas baterias
Vagoneta onde era transportada a granada de 406 mm

Com a munição de maior alcance: alto explosiva 406 mm e 600 kg ( 56 km )

 Granada de 406 mm sendo transportada pela grua e com passagem para o outro compartimento onde subiria para o canhão
Museu dentro do bunker
O colossal bloco da culatra e a granada de 406 mm AE na bandeja

Paiol das cargas de projeção

Artilheiro alemão em 1943

Prontas para serem introduzidas na câmara: granada de 406 mm e carga de projeção
 Tipos de munição e alcances
O soquete vai introduzir a granada de 406 mm na câmara

Blindagem da casamata com espessura de 50 mm de aço

Sala dos geradores
Tiro de teste em 1944

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

COLEÇÃO CAPACETES DE COMBATE

Olá amigos do Blog. O capacete de combate na sua moderna concepção balística surgiu em 1915, durante a I Guerra Mundial, projetado e introduzido no Exército francês pelo general Adrian. Ele constatou que um grande número de ferimentos graves no crânio eram produzidos por projéteis de baixa velocidade, os estilhaços e que estes poderiam ser detidos na sua maioria por um blindagem fina. Assim, logo depois, surgiram em combate, o Coal Scuttle, capacete de aço alemão e o Brodie Mk I, capacete de aço inglês. De maneira que ao final de 1915, quase todos os exércitos que lutavam nas trincheiras da I Guerra Mundial, estavam equipados com este tipo de proteção. Tal fato irá poupar milhares de vidas.
Na atualidade, além de aço especial, novos e revolucionários materiais balísticos, leves e resistentes como o kevlar, estão sendo utilizados na fabricação de capacetes, cuja a importância na proteção individual do soldado continua a ser fundamental.

Tenho uma coleção com 50 capacetes de combate. O mais antigo é um Adrian francês de 1915, e no final desta linha histórica, aparece um PASGT em kevlar, americano, de 1992.
A peça mais valiosa do acervo é um capacete alemão M40, desenterrado no campo de batalha em Stalingrado, atual Volgogrado, quando passei por lá na primeira vez, em 2009. Outros dois destaques são um capacete japonês encontrado na selva de Guadalcanal, Ilhas Salomão, em 2016 e um Mk II inglês que coletei no fundo do Canal da Mancha, quando mergulhei na Praia Gold, Normandia, em 2010.
Vale a pena ainda comentar sobre o conjunto de três capacetes de aço em modelos diferentes, utilizados pelos paulistas durante a Revolução de 1932 e que também integram o acervo.
Esta primorosa coleção já participou de diversas exposições, como no CPOR/PA, Museu Militar do CMS, 19º Btl Inf Mtz, etc.
Coloquei aqui neste artigo as fotos do último evento, conhecido como Colecionarte e que aconteceu em Igrejinha, município distante 92 km de Porto Alegre. Confiram as fotos.












sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LADY ROOM: MERGULHO NA ESCURIDÃO

Olá amigos.
Abordei em matéria anterior a história do infeliz transporte de tropas americano  SS President Coolidge e também a ação heroica do capitão Elwood, que desembarcou a salvo, mas ao saber que havia alguns soldados a bordo, retornou ao  navio, afundando com ele.
O Coolidge é um dos maiores e mais acessíveis naufrágios do mundo. O Thistlegorm do Pacífico, oferecendo mergulhos eletrizantes, de penetração parcial ou total. Sua proa se encontra a 21 m e a popa, a mais de 60 m. Seu casco colossal jaz sobre o costado de bombordo em uma rampa abrupta, puxado para as profundezas do canal Segond, ilha de Espiritu Santo, pelo peso formidável das mais de 12.000 t de carga que transportava. Com o apoio da Santo Island Dive, realizei quatro mergulhos no navio (poderiam ser dez mergulhos e ainda teria mais coisas para ver), contando sempre com a presença dos guias da operadora: Alfred e David.
Sabia muito bem que na sala de máquinas, a 48 m, existia ainda o telegrafo de ordens com a última mensagem que o Coolidge recebeu antes de topar com o campo minado. Talvez um stop engine. Mais abaixo, estava a piscina e lá na popa, havia um canhão de 127 mm na sua plataforma, além do imenso leme e o nome do navio. O guia havia comentado que o hélice tinha sido resgatado depois da guerra mas o seu eixo permanecia por lá. Atrações tentadoras mas profundas demais para o meu nível de modesto mergulhador CMAS 2 estrelas.
Os primeiros mergulhos na área da proa, foram fáceis. A luz natural penetrava forte ali. No costado estavam algumas panelas, utensílios e formas de fogão de campanha, iguais as que utilizei no meu tempo de Exército. Máscaras contra gases, escotilhas ainda com vidro, muita munição de artilharia e um fuzil Garand .30 M1 bem preservado.
Depois, em outro mergulho, penetramos e exploramos o porão nº1 onde vi um obuseiro de 155 mm, alguns jeeps e caminhões GMC. Na volta, deu para observar um canhão de 75 mm na sua base circular e respectiva munição. Pelo caminho encontrei a âncora reserva, um ventilador e uma máquina de escrever.
Mas tinha algo especial. O Everest para mim. A icônica Lady Room. Figura em alto relevo num painel de porcelana, com cerca de 70 cm de altura, representando uma dama medieval e um cavalo branco. Ela enfeitava a sala de fumantes da primeira classe, a 40 m de profundidade. Um desafio.
Desci com o atilado David. Ele levava um bail out, isto é, um cilindro menor, extra, com ar comprimido para as duas paradas de segurança que iríamos enfrentar no retorno a superfície. Apesar de sempre mergulhar com tranquilidade, estava consumindo perigosamente muito ar.
Penetramos por uma abertura no casco e desde o início fomos envolvidos por uma escuridão densa, só rompida pelos cilindros de luz das lanternas. Uma sensação assustadora, real, de extrema vulnerabilidade, descendo cada vez mais, como se aquele local fosse um poço sem fundo. Lembrei-me do meu mergulho no Yamagiri Maru, em Truk, quando o guia levou-me até um compartimento onde nos espreitava uma avelhada caveira. Arre!
Peixes curiosos nos acompanhavam e em alguns pontos, a luz refletia em bolsões de ar exalado por outros mergulhadores, aprisionados ali ad eternum. Eu respirava normalmente, estava neutro e sem nenhum sintoma de narcose.
Meu Deus! Encontramos a Dama. Momento emocionante. Contudo o flash da câmera sub falhou e tive que me contentar com algumas fotos de má qualidade. Uma pena. Conferi os instrumentos: 40 m de profundidade e a temperatura de 28 °C. Logo iniciamos o longo retorno à superfície. Que história!
Ah, tudo isto e mais detalhes, não poderão serem encontrado nos livros De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta. É matéria para o blog www.cavaleirodasprofundezas.com e, possivelmente, para um novo livro, ainda sem título e data de lançamento. Nestor Magalhães
Cartuchos de 75 mm

Panela de fogão de campanha

Escotilha no costado de boreste ainda com vidro

Grande quantidade de munição de artilharia

Forma do fogão de campanha

Com um fuzil Garand .30 M1 esquecido por um soldado americano em 1942

Máscara contra gases

O guia David "atirando" com o Garand

O guia descendo com o cilindro extra

Canhão de 75 mm na proa do navio

O guia inicia a penetração

Mergulhando na escuridão

Finalmente a Dama Medieval iluminada pelas lanternas

Foto da Lady Room coletada na internet












domingo, 26 de agosto de 2018

O SS PRESIDENT COOLIDGE - ESPIRITU SANTO - VANUATU

Olá amigos do Blog.
O President Coolidge era um elegante navio de passageiros americano, lançado ao mar em 1931 e, inicialmente, operado pela Dollar Steamship Line até 1938. Pouco depois passou a navegar pela American President Lines, até 1941. Podia transportar 988 passageiros com luxo e conforto, singrando o Pacífico nas rotas San Francisco - Kobe - Xangai - Manila. O President Coolidge era enorme, com quase 200 m de proa a popa e deslocando 21.936 t. Muito rápido, podia alcançar a velocidade máxima de 21 kt. Com o início da guerra, a sua primeira missão foi evacuar para os Estados Unidos, 125 feridos graves do ataque japonês a Pearl Habor, Havaii. Já em janeiro de 1942, carregou suprimentos para a Austrália, inclusive com dezenas de caças P-40, com destino as Filipinas. 
Requisitado pela US Navy, foi adaptado com transporte de tropas, recebendo pintura de camuflagem cinza e armamento defensivo como metralhadoras e canhões. Nesta sua nova versão, conseguia embarcar mais de 5.000 soldados, armados e equipados.
Em 26 de outubro de 1942, o SS President Coolidge entrou pelo canal principal que levava ao porto, em Espiritu Santo. Com a ameaça constante dos submarinos japoneses, esta entrada estava protegida por minas de ancoragem, situação que não foi, acidentalmente, repassada ao Coolidge. O enorme transporte então bateu em uma mina que detonou na altura da casa das máquinas, matando o marinheiro Robert Reid. Desamparado, topou com uma segunda mina, desta vez na popa. Era um navio de passageiros, adaptado, sem blindagem alguma no casco; assim, os danos foram graves e o seu capitão, Henry Nelson, pressentindo o desastre, jogou seu navio contra a praia. Houve tempo para que 5.340 soldados desembarcassem em ordem e sem pânico, mas deixando todo o seu material a bordo. O capitão Elwood Joseph Euart, do 103º Reg Art Campanha, foi um dos que chegaram a salvo até a praia, mas retornou ao navio ao saber que havia soldados presos na enfermaria. Elwood resgatou estes homens mas o transporte virou sobre o seu costado de bombordo e naufragou no canal. O capitão foi junto com o navio, constituindo-se na segunda vítima fatal. Seu corpo só foi encontrado por um guia de mergulho em 2013 e resgatado em 2014. Ainda estava com o seu dog tag. Elwood Joseph Euart foi agraciado com a Distinguished Service Cross pelo seu ato de heroísmo. Hoje o President Coolidge é considerado como um dos naufrágios top do mundo, alegria dos mergulhadores de todos os níveis. O Thistlegorm do Pacífico. Sua proa jaz a 21 m e a popa a mais de 60 m. Que história! 

Fatos e a rota do SS President Coolidge em 26 de outubro de 1942

5.340 soldados desembarcaram em ordem e em 90 minutos

O grande navio emborcou sobre o seu costado de bombordo
Desenho do naufrágio com seus pontos de interesse e profundidade

A imagem pelo sonar da situação atual do naufrágio

A dama medieval e o cavalo branco, figura que indica o banheiro feminino, Lady Room, a 40 metros de profundidade, nas entranhas do navio

Capitão Elwood Joseph Euart, 103 º Batalhão de Artilharia de Campanha, Distinguished Service Cross

Dog Tag (plaqueta de identificação) encontrada no corpo do capitão em 2014

Com o guia David, exatamente no ponto onde o navio encalhou em 1942

Memorial nas proximidades da praia