segunda-feira, 6 de março de 2017

CAÇANDO O ALMIRANTE



Na função de Comandante da Frota Combinada, Isoroku Yamamoto conquistou o respeito e a admiração de seus homens. Nenhum outro oficial jamais obteve tamanha popularidade como a que este homem ímpar conquistou. Yamamoto não era unicamente um almirante, ele era a personificação da Marinha Imperial japonesa durante a Guerra no Pacífico, de 1941 a 1945.
Dizem que Yamamoto tornou-se, no Pacífico, o desconforto dos almirantes da US Navy, assim como Rommel, na Líbia, era para os generais ingleses. Em abril de 1943, criptógrafos da Marinha americana interceptaram e decifraram uma mensagem em código japonesa onde constava todos os detalhes de uma viagem aérea de Yamamoto. Ele ia inspecionar algumas bases e postos avançados japoneses localizados em Papua-Nova Guiné, isto no dia 18 de abril de 1943. Os americanos então organizaram rapidamente a Operação Vingança que iria se tornar a mais notável interceptação aérea da II Guerra Mundial. Era um longo voo de Guadalcanal, Ilhas Salomão, até Bougainville, Papua-Nova Guiné, posição onde se planejava abater o avião do almirante. Seriam quase 2.000 km a serem vencidos por 16 caças P-38 Lightning que receberam dois taques suplementares descartáveis de combustível para alcançar tal autonomia. Estes aviões era do Esquadrão 339 comandados pelo Major Mitchel.
Yamamoto era pontual pois na hora, altitude e rumo exatos, os dois bombardeiros Betty onde viajavam o almirante e seu staff, bem como uma escolta de caças Zeros, foram avistados pelos P-38. Seguiu-se feroz combate aéreo e os dois bombardeiros, apesar da resistência obstinada dos seis Zeros da escolta, foram derrubados. O avião do almirante caiu em plena selva ao sudeste da Ilha de Bougainville, nas proximidades de Buin. O outro bombardeiro despencou no mar. Os americanos perderam um Lightning mas a missão foi cumprida. O corpo do almirante Yamamoto foi encontrado fora dos destroços, preso em seu assento, com buracos de balas no ombro e parte inferior da cabeça. Possivelmente teve morte instantânea a bordo do avião. Ainda segurava o seu sabre de samurai.
Queria conhecer a clareira onde estavam os destroços do Betty do almirante. Isto era História. Assim, viajei mais de 3 horas em um Jeep Toyota por estradas medonhas na selva e rios de Bougainville. O motorista, veloz e furioso, me manteve assustado por todo este tempo. Junto, seguia o guia, conhecedor do local onde estava o avião e tão maluco quanto o primeiro. Que coisa!
Alcançamos um determinado ponto onde havia algumas choupanas muito humildes e dali em diante prosseguimos a pé. Tinha chovido durante a madrugada e a selva se apresentava gosmenta, úmida, infestada de malária. Poças de lama pegajosa e fétida se estendiam por toda a parte. Foi um verdadeiro suplicio pois eu tinha um ferimento no pé. Três dias antes, em um mergulho no naufrágio de um Zero em Simpson Harbour, Rabaul, havia cortado o pé em um coral afiado. Agora cada passo naquela trilha miserável era um sacrifício. Com pouco mais de uma hora de marcha, começaram a aparecer pedaços das asas do avião e não muito tempo depois a trilha desembocou na pequena clareira. Lá se encontrava dormitando o bombardeiro Betty. Emocionante! Do meio para a cauda estava relativamente inteiro. Com o leme e a rechonchuda fuselagem esburacados pelas balas dos Lightnings e retalhado pelos caçadores de relíquias. Um dos grandes motores radiais jazia em plena clareira, com as três pás da hélice cordadas à serra. Uma pena. A cor verde original da camuflagem, por causa de alguma reação química provocada pelo intemperismo de 74 anos, havia se modificado para traços avermelhados. O interior do avião também apresentava marcas de projéteis .50 e um ou outro rasgão de granadas de 20 mm.
Permanecemos pouco mais de duas horas no local e, antes de partir, pude confirmar com o auxílio de uma bússola que e orientação do bombardeiro quando caiu era de norte a sul.
A volta foi tão ou mais cansativa do que a vinda, mas eu trouxe comigo a história e um momento inesquecível.

Almirante Yamamoto

O P-38 Lightning dispara a queima roupa contra o Betty do Almirante

A fuselagem se encontra orientada de norte a sul

Posição do artilheiro de cauda com o canhão de 20 mm

Um dos motores radiais com as pás das hélices serradas por caçadores de relíquias

Posição lateral da metralhadora

Interior da fuselagem do bombardeiro

Junto à posição do canhão de 20 mm

Com os guias


cavaleirodasprofundezas@gmail.com

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul, Porto Alegre. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB), mergulhador CMAS** com quatro especializações, Submarinista Honorário da Marinha do Brasil e recebeu a Medalha do Mérito Tamandaré. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Hawaii, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal e Mar Vermelho.

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