sábado, 18 de março de 2017

UM ZERO POUCO PROFUNDO



Olá amigos. Retornei recentemente de Rabaul, Papua-Nova Guiné, antiga e importante base logística-operacional japonesa durante a Guerra do Pacífico. Realizamos onze mergulhos nos naufrágios que jazem na Baía Simpson, na verdade uma grande caldeira vulcânica alagada, bem como em outros locais nas proximidades. O oceano Pacífico fez jus ao nome, nos recebendo com águas tépidas, sem ondas e ou corrente. Um dos naufrágios explorados foi um caça Zero que se encontrava fora desta baía, nas proximidades da costa e encrustado no coral a cerca de quatro metros de profundidade. Faltava a cauda do avião mas o restante estava em regular estado. Com a pouca profundidade, havia muita luz natural, fato que permitiu uma boa qualidade nas fotos. Confiram.

Caçadores de relíquias serraram uma pá da hélice

A capota do cockpit ainda aberta, manche e pedais ainda no lugar

Abundante vida marinha se prende ao naufrágio

Faltava a cauda do avião

Sobre a asa direita

O armamento, canhões e metralhadoras,  haviam sido removidos

Detalhe do plexiglass partido na capota

segunda-feira, 6 de março de 2017

CAÇANDO O ALMIRANTE



Na função de Comandante da Frota Combinada, Isoroku Yamamoto conquistou o respeito e a admiração de seus homens. Nenhum outro oficial jamais obteve tamanha popularidade como a que este homem ímpar conquistou. Yamamoto não era unicamente um almirante, ele era a personificação da Marinha Imperial japonesa durante a Guerra no Pacífico, de 1941 a 1945.
Dizem que Yamamoto tornou-se, no Pacífico, o desconforto dos almirantes da US Navy, assim como Rommel, na Líbia, era para os generais ingleses. Em abril de 1943, criptógrafos da Marinha americana interceptaram e decifraram uma mensagem em código japonesa onde constava todos os detalhes de uma viagem aérea de Yamamoto. Ele ia inspecionar algumas bases e postos avançados japoneses localizados em Papua-Nova Guiné, isto no dia 18 de abril de 1943. Os americanos então organizaram rapidamente a Operação Vingança que iria se tornar a mais notável interceptação aérea da II Guerra Mundial. Era um longo voo de Guadalcanal, Ilhas Salomão, até Bougainville, Papua-Nova Guiné, posição onde se planejava abater o avião do almirante. Seriam quase 2.000 km a serem vencidos por 16 caças P-38 Lightning que receberam dois taques suplementares descartáveis de combustível para alcançar tal autonomia. Estes aviões era do Esquadrão 339 comandados pelo Major Mitchel.
Yamamoto era pontual pois na hora, altitude e rumo exatos, os dois bombardeiros Betty onde viajavam o almirante e seu staff, bem como uma escolta de caças Zeros, foram avistados pelos P-38. Seguiu-se feroz combate aéreo e os dois bombardeiros, apesar da resistência obstinada dos seis Zeros da escolta, foram derrubados. O avião do almirante caiu em plena selva ao sudeste da Ilha de Bougainville, nas proximidades de Buin. O outro bombardeiro despencou no mar. Os americanos perderam um Lightning mas a missão foi cumprida. O corpo do almirante Yamamoto foi encontrado fora dos destroços, preso em seu assento, com buracos de balas no ombro e parte inferior da cabeça. Possivelmente teve morte instantânea a bordo do avião. Ainda segurava o seu sabre de samurai.
Queria conhecer a clareira onde estavam os destroços do Betty do almirante. Isto era História. Assim, viajei mais de 3 horas em um Jeep Toyota por estradas medonhas na selva e rios de Bougainville. O motorista, veloz e furioso, me manteve assustado por todo este tempo. Junto, seguia o guia, conhecedor do local onde estava o avião e tão maluco quanto o primeiro. Que coisa!
Alcançamos um determinado ponto onde havia algumas choupanas muito humildes e dali em diante prosseguimos a pé. Tinha chovido durante a madrugada e a selva se apresentava gosmenta, úmida, infestada de malária. Poças de lama pegajosa e fétida se estendiam por toda a parte. Foi um verdadeiro suplicio pois eu tinha um ferimento no pé. Três dias antes, em um mergulho no naufrágio de um Zero em Simpson Harbour, Rabaul, havia cortado o pé em um coral afiado. Agora cada passo naquela trilha miserável era um sacrifício. Com pouco mais de uma hora de marcha, começaram a aparecer pedaços das asas do avião e não muito tempo depois a trilha desembocou na pequena clareira. Lá se encontrava dormitando o bombardeiro Betty. Emocionante! Do meio para a cauda estava relativamente inteiro. Com o leme e a rechonchuda fuselagem esburacados pelas balas dos Lightnings e retalhado pelos caçadores de relíquias. Um dos grandes motores radiais jazia em plena clareira, com as três pás da hélice cordadas à serra. Uma pena. A cor verde original da camuflagem, por causa de alguma reação química provocada pelo intemperismo de 74 anos, havia se modificado para traços avermelhados. O interior do avião também apresentava marcas de projéteis .50 e um ou outro rasgão de granadas de 20 mm.
Permanecemos pouco mais de duas horas no local e, antes de partir, pude confirmar com o auxílio de uma bússola que e orientação do bombardeiro quando caiu era de norte a sul.
A volta foi tão ou mais cansativa do que a vinda, mas eu trouxe comigo a história e um momento inesquecível.

Almirante Yamamoto

O P-38 Lightning dispara a queima roupa contra o Betty do Almirante

A fuselagem se encontra orientada de norte a sul

Posição do artilheiro de cauda com o canhão de 20 mm

Um dos motores radiais com as pás das hélices serradas por caçadores de relíquias

Posição lateral da metralhadora

Interior da fuselagem do bombardeiro

Junto à posição do canhão de 20 mm

Com os guias