terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

MERGULHO NA FORTALEZA VOADORA - BAÍA DO FUNDO DE FERRO - GUADALCANAL

Foi uma jornada emocionante e eu compartilho agora, plena de mais detalhes, com todos vocês; uma história que não pode ser esquecida. Consegui coletar este filme com cenas subaquáticas deste interessante naufrágio. Mergulhei nele quando estive no ano passado em Guadalcanal, Ilhas Salomão. É uma B-17 E Fortaleza Voadora chamada de Bessie, The Jap Basher. O bombardeiro vinha da sua quarta missão (24 Set 42), voando cerca de 290 milhas desde as Shortland, atormentado por enxames de Zeros enfurecidos e buscava alcançar o aeródromo de Henderson Field. Havia bombardeado duro navios japoneses nas proximidades destas ilhas.

O avião estava muito avariado, crivado de balas e granadas japonesas, com o vento zunindo pelos buracos e os pedaços de metal arrancados pelo inimigo rodopiando no ar. Os quatro motores urravam em velocidade máxima. Corria pela sua vida, a toda brida à frente, com os pilotos exigindo do avião todo o desempenho que era capaz. Faltavam somente quatro milhas para pousar no campo de Henderson quando caiu no mar, em Dome Cove, na famigerada Baia do Fundo de Ferro. Apesar de estar bem perto da costa, ao que parece, somente o piloto, 1º Ten Charles E. Norton e um dos metralhadores, o Sgt Bruce W. Osborne, conseguiram nadar até a praia. Quanto aos outros oito tripulantes, nunca mais se soube deles. Tudo leva a crer que o Ten Norton foi executado a fio de sabre pelos japoneses e o esqueleto do metralhador foi encontrado pelos Seabees dois anos mais tarde, semi enterrado na praia. Possivelmente também executado. Que história!

Foi um mergulho eletrizante e especial pois era o meu 200 º registrado em log book. Além disto eu já sabia de toda a história quando entrei na água, a partir da praia. O naufrágio estava muito raso, cerca de 20 m, a fuselagem desmantelada, mas era possível a penetração. Os manches e manetes ainda estavam em seus lugares bem como a metralhadora Browning .50 do nariz. A torre dorsal permanecia melhor conservada, ainda com as duas .50 firmemente engastadas nos seus lugares, como se estivessem prontas para atirar, ainda apontadas para os Zeros. As asas eram gigantescas e estavam inteiras, com os grandes motores ainda nas suas posições. Nadei sobre a asas encontrando grande quantidade de corais, anêmonas, esponjas e pequenos peixes coloridos, bem como buracos das granadas japonesas de 20 mm. Uma superfície gosmenta ao tato, sem restos de tinta. No bordo de ataque da asa de bombordo, estava pendurado fora do seu alojamento, uma espécie de refletor ou lâmpada. Interessante o fato de as pontas das hélices não estarem tortas. Isto indica que, provavelmente, o bombardeiro amerissou com os motores parados. Penetrei a fuselagem. Na areia, dentro, talvez recém descoberto pela corrente, jazia um pedaço de osso humano, possivelmente de um fêmur e mais adiante um painel de instrumentos do navegador.  Não vi a cauda do avião. Em um mergulho posterior, em outro naufrágio, não muito distante da velha Bessie, encontrei uma venerável metralhadora Browning .50 na areia. Seria da Fortaleza?

Então aproveitem o filme e as fotos. Abração. Nestor
Uma majestosa Fortaleza Voadora ostentando a camuflagem olive drab sobre o Pacífico
Painel de instrumentos do navegador

Pá da hélice de um dos motores
 
As duas metralhadoras Browning .50 ainda engastadas na torre dorsal

Sobre a fuselagem do bombardeiro

Junto a torre das Browning .50

Meu guia Alwin sobre a fuselagem

Alwin penetrando o bombardeiro

Bordo de ataque da asa esquerda da Bessie
Metralhadora Browning .50 encontrada na praia não muito distante do naufrágio da B-17
Os manches e manetes da Fortaleza Voadora
Pedaço de um fêmur encontrado dentro do naufrágio

Metralhadora .50 na posição lateral de uma Fortaleza Voadora





cavaleirodasprofundezas@gmail.com

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul, Porto Alegre. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB), mergulhador CMAS** com quatro especializações, Submarinista Honorário da Marinha do Brasil e recebeu a Medalha do Mérito Tamandaré. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Hawaii, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal e Mar Vermelho.

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