domingo, 24 de janeiro de 2016

A COLHER DO TIRPITZ - Vale a pena relembrar

Queria mergulhar nos destroços do encouraçado alemão Tirpitz, na Noruega, além do Círculo Polar Ártico, bombardeado pela última vez ao largo da Ilha Hakoy por aviões ingleses no dia 12 de novembro de 1944. O poderoso navio deslocava 52.600 t e tinha o comprimento de 251 m. Seu armamento principal era esmagador: oito canhões de 380 mm distribuídos em quatro torres escalonadas. O cinturão blindado que envolvia e protegia o seu casco, era quase impenetrável. Tinha 323 mm de aço. Em 1942, o  Tirpitz navegou para a Noruega e teve uma existência nômade. Fundeando de fiord em fiord, esconderijos seguros para uma tocaia, sempre uma ameaça real aos comboios que navegavam para a Rússia e uma intimidação a qualquer tentativa de invasão aliada à Noruega. Era temido principalmente por ser uma herança deixada pelo seu irmão, o Bismarck. Conhecido como o “Solitário Rei do Norte", o Tirpitz teve uma existência atormentada por ataques com torpedos, mini submarinos e bombas. No final de 1944 estava avariado, não mais operacional como navio, sendo então rebocado para a Ilha Hakoy para servir como bateria costeira. Local que seria a sua sepultura submarina.

Já havia sido castigado em ataques anteriores, mas neste dia (12 Nov 44) teve um final wagneriano: atingido por duas bombas aéreas Tallboy de 5.400 kg cada, que perfuraram a blindagem do seu convés, explodiu e emborcou perto da praia, afundando com cerca de 1.000 marinheiros ainda a bordo, sendo que centenas deles ficaram aprisionados nas entranhas do encouraçado. Terrível morrer deste jeito, no escuro e no frio, nas profundezas destas águas glaciais. De 1949 a 1957, sucateiros noruegueses iniciaram o desmantelamento do navio para aproveitar aquela imensa massa de aço de extrema qualidade. Em Narvik, visitei o Museu Militar e lá, além de um pedaço de sua espessa blindagem, pude ver um detalhado modelo do navio em escala. Achei-o majestoso e soberbo, entre todos os instrumentos de guerra. Sabia muito bem que o navio havia sido desmanchado, todavia, mesmo assim, ainda existia muita História por lá. Logo planejei mergulhar nos destroços do Tirpitz no verão norueguês de 2014. Não foi fácil conseguir alguém que me apoiasse mas tive a ajuda de um jovem e hábil mergulhador norueguês chamado Dag-Thorbjon Ballo e ele foi o meu guia naquela memorável jornada. Alcançamos o local do naufrágio junto a uma praia na Ilha Hakoy, proximidades de Tromso, lugar perigoso para se caminhar equipado, um tapete gosmento de algas, pedras escorregadias e ainda com a presença de gigantescas crateras das Tallboys que erraram o alvo. Minha nossa! A água estava a 9° C e o leito do mar era um verdadeiro ossuário de ferros enferrujados e retorcidos, entre algas e ouriços-do-mar. Apesar de um frio do cão, a roupa seca tornava o mergulho suportável. A visibilidade até que era boa para uma imersão partindo da praia, uns 9 ou 10 m. Encontramos ossos humanos, sapatos, uma bota de marinheiro, uma colossal granada de 380 mm da artilharia principal do encouraçado e várias de 150 mm da artilharia secundária. Pedaços da blindagem, rebites, cabos, fragmentos de madeira e uma escada. Também botões, a corrente da âncora e alguns fuzis Kar 98 K muito bem conservados para terem 70 anos de submersão. O Dag remexendo na areia gelada do fundo, coletou uma colher com a marca do fabricante e, sinistramente impressa no cabo, horrível, ainda ameaçadora, a águia nazista. Impressionante. Deu-a de presente para mim. Meu Deus, que suvenir!

Semanas depois, já no Brasil, estava na agradável companhia do meu amigo velejador e mergulhador Cylon Rosa Neto e respectivas esposas, jantando no clube Veleiros do Sul, tradicional clube náutico em Porto Alegre. Também conosco, mais dois casais de amigos. Empolgado, mostrei então a todos a colher do Tirpitz com a águia nazista marcada firmemente no cabo, provocando curiosidade e admiração. A parte côncava da colher havia sido corroída por ação intensa do fogo e da água salgada, após ficar enterrada na areia por todo aquele tempo. Depois de todos examinarem, coloquei a colher na mesa, paralela aos outros talheres. Eis que apareceu o garçom e viu a tal colher. Embaraçado e até bastante constrangido, acreditando que ela pertencia ao jogo de talheres do restaurante do clube e que por descuido ou relaxamento, havia sido colocado na mesa, tentou se aproximar pela minha retaguarda por três vezes, como uma sombra, prendendo a respiração...  Zaz! Pegou a colher e discretamente escondeu-a sob a manga, caminhando de mansinho para longe da mesa, entrando na cozinha e jogando a colher do Tirpitz na...lata de lixo!

Foi por um triz, mas consegui recuperá-la. Seria um fim um tanto insólito para um objeto pleno de tanta História e encantamento. Passado o susto, foram só risadas.

A história completa desta emocionante aventura é o Capítulo 34 do livro De Truk a Narvik – Mergulhando na História.

Este artigo também pode ser lido no site www.brasilmergulho.com.br

A colher

Cratera de uma bomba Tallboy que errou o alvo

Junto a praia um memorial feito com a blindagem do encouraçado, marca o local da tragédia

Estrutura utilizada como apoio pelos sucateiros, na maré baixa

Bota e sapatos de marinheiro no fundo de areia
O guia Dag com uma tíbia encontrada nos destroços

Granadas de 150 mm da artilharia secundária do Tirpitz

Modelo do Tirpitz no Museu Militar de Narvik
Bomba Tallboy sendo carregada em um bombardeiro Lancaster
Fragmento da blindagem lateral do casco do encouraçado em exposição no Museu Militar de Narvik
O Tirpitz sendo desmantelado em 1950. Em primeiro plano a mesma cratera da bomba Tallboy

Com um fuzil Kar 98 K








cavaleirodasprofundezas@gmail.com

Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul, Porto Alegre. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB), mergulhador CMAS** com quatro especializações, Submarinista Honorário da Marinha do Brasil e recebeu a Medalha do Mérito Tamandaré. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira, destacando, entre outros, a participação em uma expedição exploratória no Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios de Truk Lagoon, Hawaii, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Estreito de Tiran, Estreito de Gubal e Mar Vermelho.

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