segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OST - 'Das Boot'

Prefácio do livro: "Uboats - Mergulhando na História"



A vida muitas vezes nos leva a conhecer pessoas especiais, que se destacam por diversos motivos, como realizar várias obras altruístas, executar audaciosos planos empresariais, bater recordes no esporte ou demonstrar grande coragem frente aos mais variados perigos.

Nestor Magalhães é uma dessas pessoas que se destacam e que, apesar de  não saber nadar e de tentar aprender inutilmente diversas vezes, colocou sua coragem e determinação acima do medo e se formou um mergulhador dos mais intrépidos que o Brasil poderia ter.

Eu tive a honra de conhecê-lo após fundar o Grupo BdU – Brazilians discovering Unterseeboote, um grupo de estudos sobre a atuação dos submarinos alemães na II Guerra Mundial, que possui o foco em três áreas bem distintas: a história militar e suas implicações estratégicas, a  reprodução das embarcações e aeronaves usadas na luta anti-submarino utilizando técnicas de modelismo e o mergulho em naufrágios de navios de guerra e submarinos.

Nestes três quesitos Nestor se destaca também, como pesquisador entusiasmado de história militar, um hábil modelista e principalmente em sua atuação sob as águas, de forma que este livro conta suas interessantes peripécias submarinas.

Estas aventuras, realizadas nas mais difíceis condições técnicas e financeiras inclusive, dá ainda mais valor ao excelente trabalho realizado pelo autor, que por não ter apoio oficial em suas viagens, investe seu tempo e dinheiro em trazer à tona, literalmente, para seus leitores, todas as emoções de se mergulhar em uma das mais temidas e eficazes máquinas de guerra que a Humanidade já viu em ação: os famosos “Lobos Cinzentos”, como eram conhecidos os submarinos alemães da Segunda Guerra.




As sagas submarinas do autor e suas visitas aos mais importantes museus militares do mundo, ilustram bem o grande interesse que há pelos submarinos alemães, passados mais de 64 anos do fim da II guerra Mundial.

De todas as armas desta guerra, os “U-Boats” (uma abreviatura do termo Unterseeboote ,que significa barco que navega sob a água em alemão), foram a maior preocupação das forças Aliadas durante os quase 6 anos de duração do conflito, sendo que o próprio Primeiro Ministro inglês na época, Sir Winston Churchill, declarou que a Inglaterra por pouco não capitulou frente à Alemanha por causa da atuação de seus submarinos.

 E neste caso vale um parênteses especial, pois uma grande injustiça histórica deve ser reparada com este livro, pois apresenta aos leitores uma arma mortal, altamente eficaz sob o comando de um ardiloso inimigo e que exerce até hoje um enorme fascínio entre os estudiosos das ações militares, mas que nem sempre esteve sob o jugo da bandeira nazista.

Cabe informar que a grande maioria dos comandantes dos submarinos e seus tripulantes, não faziam parte do partido nazista neste último grande conflito, sendo que seu maior Ás, o Kapitänleutenant Otto Kretschmer do célebre U-99, não gostava de participar das cerimônias de propaganda e chegou inclusive ao posto de Almirante na OTAN, devido ao fato de que foi reconhecido no pós-guerra como um ótimo comandante e não simpatizante do partido nazista.

Este livro também presta uma homenagem aos vários heróis anônimos brasileiros, que lutaram e morreram no mar e que foram esquecidos pela Mídia em geral. Uma informação que poucas pessoas sabem, é que morreram mais brasileiros no mar, principalmente nos navios mercantes torpedeados na costa norte-americana ou em águas brasileiras, do que nos céus ou terras da Itália.

A atuação da FEB – Força Expedicionária Brasileira, frente ao Exército Alemão e do grupo de aviação de caça “Senta à Púa”, representou uma grande contribuição do Brasil na luta contra as forças do Eixo, mas se morreram pouco mais de 400 brasileiros na Itália, no mar tivemos mais de 1.200 vítimas fatais que quase sempre são esquecidas nas comemorações oficiais, matérias na Mídia e na memória da nossa nação.

Dessa forma, os estudos e mergulhos do autor nos U Boats, mostram as aventuras de um brasileiro singular, tenente do Exército Brasileiro, mas que foi buscar no fundo do mar pedaços da história forjados com  ferro e sangue.


Caro leitor, mergulhe de cabeça neste livro. Vá fundo junto com o autor até as profundezas dos mares e sinta todas as emoções de quem passou frio, sentiu a pressão física e psicológica das águas escuras e mesmo assim emergiu com um sorriso especial no rosto, o sorriso daquelas pessoas que se comprometeram em cumprir uma missão e conseguiram atingir seus objetivos.


Nestor, obrigado por sua amizade e por compartilhar comigo suas aventuras. São pessoas como você que fazem de nós, mergulhadores, historiadores, modelistas e amantes de histórias de guerra, orgulhosos de pertencer ao mesmo grupo que você faz parte.

Boa leitura!

Sérgio de S. Carvalho Jr.
Presidente – Grupo BdU
Instrutor de Mergulho C.M.A.S
Mergulhador PADI

Release do livro: "Uboats - Mergulhando na História"

U Boats, Mergulhando na História


Talvez a lembrança mais remota que ainda perdura vacilante em minha memória, é a história sobre o encouraçado-de-bolso Admiral Graf Spee, contada à exaustão pela minha mãe. Ela costumava até a cantarolar para mim uma marchinha de rima forçada, do Carnaval de 1940, da qual guardei o seu refrão: “Sooou marinheiro do Graf Spêêê” e ela tinha vivido aquele tempo. Eu era muito pequeno e ali começava o gosto pela história militar. Depois apareceu a série na televisão, Aventura Submarina, onde o ator Lloyd Bridges personificava o herói mergulhador Mike Nelson, isto no início dos anos 60, bem antes de Cousteau. Pronto, bala na mosca, toda a gurizada queria ser mergulhador!

Foi por esta época que comecei então a desenvolver especial interesse pela Batalha do Atlântico e a ação dos U Boats, os submarinos alemães, nesta que é considerada a mais longa batalha da II Guerra Mundial. Tão longa que alguns autores a consideram como campanha. Estes, os U Boats, foram a mais mortal arma da Alemanha e por muito pouco não derrotaram a Inglaterra e modificaram para sempre o desenlace da II Guerra Mundial. E nunca na história de todas as guerras desta pobre Humanidade, uma força militar sofreu tal percentual de baixas (mais de 60%) e continuou lutando, ameaçando e retendo imensos recursos humanos e materiais dos Aliados, até o fim. Foi então que eu senti. Estava definitivamente fascinado pela história da guerra dos U Boats, das suas façanhas e dos homens destemidos que, mesmo por uma causa errada, haviam lutado sob as ondas como ninguém jamais o fizera. Que história!



Ah, ser mergulhador? Bem, aconteceu muito tempo depois e como foi difícil para mim! Tinha sido convidado por dois colegas do Exército para realizar um curso básico de mergulho. Não aceitei, claro. Eu não sabia nadar (não sei até hoje!) e, consequentemente, tinha pavor da água. Fui obrigado a fazê-lo. Chantageado a continuar em aula sob pena de que a minha covardia fosse tornada pública no quartel. E foi duro, um verdadeiro martírio. Era o paspalhão da turma, o cara que agarrava o cinto de lastro pela fivela ou aquele que andava com a máscara na testa. O "pobre bicho" que estourava o o-ring ao desatarraxar o primeiro estágio do cilindro sem despressurizar o circuito. Um desastre total, quer na água da piscina ou fora dela. Era o Patinho Feio da turma, como havia sido rotulado por um impaciente e irritado monitor. Que coisa triste!

Mas o Patinho Feio era um cisne e não sabia. E aí deu o estalo, caiu a ficha, já quase no final do curso, e então consegui com mérito a minha certificação CMAS. Mesmo sem saber nadar havia descoberto ter um talento...hummm...digamos...subaquático, à semelhança de uma foca feliz. Entretanto, posso afirmar com certeza: ser mergulhador foi a tarefa mais dura de toda a minha vida.

O meu primeiro U Boat foi o U 1277, afundado ao largo da cidade portuguesa do Porto pela própria tripulação, logo após o final da II Guerra Mundial. O casco de pressão repousava a 31 m, em um fundo de areia branca, com restos de redes ainda presos no metal apodrecido. Jamais vou esquecer o aço inox do corpo do periscópio que faiscou para a vida ao ser raspado pela faca do meu dupla e a água gelada do Atlântico.


Depois foi o U 352, afundado em combate na costa da Carolina do Norte em 1942 e descoberto pelo célebre mergulhador americano George Purifoy em 1973. Mergulhei nele em 2006, favorecido por uma água quente e transparente. Além disso tive o prazer de conhecer pessoalmente o velho George e seu museu com peças coletadas no U 352.

Em 2007 foi a vez do Black Panther, o U 1105. Por quê o apelido? Este U Boat era um Tipo VII C/41 recoberto por uma camada de borracha sintética preta, uma idéia de tecnologia Stealth, já em 1944, destinada a enganar o radar e ou sonar Aliado. "Foi capturado pelos ingleses no fim da guerra e entregue aos americanos pouco depois. Estes, fizeram uma verdadeira necropsia em busca dos seus segredos. Anos depois, fartos, afundaram-no no Rio Potomac, Mariland. Desci até o Pantera, a 28 m, em uma água escura e consegui arrancar um pedacinho da borracha do seu casco, para mim um verdadeiro tesouro. Quase perdi a vida neste mergulho.


Mas deveria haver uma forma de visitar um submarino sem se molhar. Assim conheci o U 505, um U Boat Tipo IX C capturado em combate pela US Navy em 1944 e conservado a seco no Museum of Science and Industry, em Chicago. Milhares de pessoas vão até este museu para conhecer esta máquina extraordinária que lá permanece, intacta, elegante e ainda ameaçadora, recebendo uma multidão que entra a bordo por uma escotilha na proa e sai por outra na popa.

O ano de 2008 foi muito feliz para mim. Consegui mergulhar no U 85, um Tipo VII B, o primeiro submarino alemão a ser afundado pelos americanos em 1942 e que está ao largo da cidade de Nags Head, também Carolina do Norte. Sobre um fundo de areia branca, com marcas de ondas e a cerca de 33 m de profundidade. Este U Boat foi surpreendido à noite na superfície por um destróier e, atingido pelo fogo de metralhadoras pesadas e canhões, começou a afundar. A tripulação conseguiu abandonar o barco e nadava na superfície quando o navio manobrou e lançou uma salva completa de cargas de profundidade sobre eles. Ninguém sobreviveu. Os americanos sepultaram os restos dos 27 marinheiros do U 85 no Hampton National Cemetery, Virginia, e eu fui lá para vê-los. Que história!

Um pulo até o estado de Connecticut e ali mergulhamos no U 853, afundado sem sobreviventes junto a Block Island, horas após o final da II Guerra Mundial. Ele não ouviu a ordem de rendição dada por Karl Doenitz e atacou alguns navios naquela área. Uma água gelada e uma longa descida me levaram até o U Boat que está relativamente bem conservado, ainda na posição de navegação. Uma sepultura militar a quase 40 m, ainda com as marcas no casco de um fim violento.


Uma semana depois estava na Bretanha, França. Ali, com apoio do experiente mergulhador francês Jean-Louis Maurette, visitei o U 171 que está a 42 m de profundidade em uma água verde e gelada. Ali foi um dos grandes momentos da minha vida de modesto mergulhador pois consegui penetrar o naufrágio na altura da sala de controle, a famosa Zentrale. Minha nossa, estive dentro da Zentrale de um U Boat!

Lógico que tinha que aproveitar a oportunidade de estar na França. Mergulhei então nos destroços do Dia D, na Normandia. Um mergulho inesquecível.

Também não deveria deixar de visitar os famosos U Bunkers, abrigos de concreto que acolhiam os U Boats e os protegiam das bombas Aliadas sob um teto blindado de concreto com mais de 7 m de espessura. Estive dentro e sobre o abrigo Keroman 3, no porto de Lorient. Lembra do filme Das Boot? Dã, dã, dã, dã, tãra, ta, tã... Pois é, igual!


Ali por perto estava a casa na qual o Almirante Karl Doenitz, comandante da Uboatewaffe, havia dirigido a Batalha do Atlântico por meses. Claro que estive lá.

Já era muita história para contar. Escrevi dois artigos de página inteira para o jornal Zero Hora, outro para o jornalzinho do Comando Militar do Sul e depois foram inúmeras matérias nas revistas Mergulho, Deco Stop e Nextime. Mais tarde redigi uma coluna no importante site http://www.naufragiosdobrasil.com.br/, outra menor no http://www.clubedomergulhador.com.br/ e assinei diversos artigos no site espanhol http://www.u-historia.com/.

Achei que era o suficiente. Mas não era. Minha esposa e amigos começaram a cobrar a idéia de um livro. Não acreditei. Ora, para um livro não haveria assunto suficiente. Puxa, isto era pura perda de tempo! Um livro é muito complicado.


Insistiram tanto que eu sentei no teclado e, descrente, comecei a escrever. Então, para a minha surpresa, as páginas brotaram, sucederam e multiplicaram. Foram 10 capítulos, atingidos sem muito esforço. Tudo isto em menos de um ano.

Mas ainda faltava alguma coisa. Viajei até a Alemanha e lá visitei dois U Boats que estão em museus: o U 995 e o notável U 2540, um elegante Tipo XXI que mudaria o resultado da guerra, mas que chegou tarde demais. Também estive no Memorial Naval Alemão e no Memorial dos U Boats, cada um deles produziu um capítulo para o livro de tão interessantes que foram.

Depois foi uma ida até Istambul. Lá me esperava o qualificado mergulhador e arqueólogo submarino turco, Selçuk Kolay. Ele havia identificado o U 20 no fundo do Mar Negro e eu o tinha convencido a me levar até o naufrágio. O U 20 era uma história formidável. Ele e mais 5 irmãos Tipo II B, haviam sido desmontados no norte da Alemanha, transportados por via fluvial e rodoviária por 2.300 km até o porto de Constansa, Romênia, recomissionados e postos em operações de combate contra a navegação soviética no Mar Negro. Entretanto, ondas com mais de 2 m, abortaram o nosso mergulho. Perdi a viagem.


No ano passado dediquei um capítulo, o número XV, para a guerra submarina na costa brasileira. Para isto realizei intensa pesquisa histórica sobre o paquete Itapagé na cidade de Maceió. O Itapagé havia sido colocado a pique em 1943 por dois torpedos do U 161 junto ao litoral de Alagoas. Mergulhei no naufrágio deste belo vapor de 5.000 ton, uma exploração emocionante o qual eu considero como o melhor dos inúmeros mergulhos registrados no meu logbook.

O veterano ...



Uniformes originais:



Cobertura de Marinheiro do U-777


Retornei ainda este ano à Turquia e mergulhei no U 20, que está fundo do Mar Negro. Fantástico momento! Depois fui até Birkenhead, Inglaterra, para conhecer o U 534, um U Boat Tipo IX C/40 que foi resgatado do fundo do Kattegat e pode ser visitado em um museu. Uma surpreendente e incomparável máquina do tempo. E, finalmente, ainda no término do verão americano de 2010, consegui mergulhar no U 701, afundado em combate ao largo de Hatteras, USA, em 1942. Um mergulho difícil e perigoso pois o local do naufrágio é em um ponto onde as correntes do Golfo e do Labrador se encontram.


Desta forma, concluí o “U Boats, Mergulhando na História” com cerca de 254 páginas, distribuídas em 18 capítulos e com um caderno de fotografias composto de 16 páginas. Se tudo se desenvolver de maneira correta e prevista, com o apoio de uma editora que se disponha a bancar os custos, o lançamento do livro acontecerá antes de dezembro de 2010. E se porventura eu conseguir levar você meu caro leitor, junto comigo, para o fundo do oceano. Compartilhando um pouquinho do meu ar, do meu arrepio e da minha emoção, os objetivos deste livro terão sido plenamente alcançados."


“...ajoelhar-se na areia branca do fundo do mar, escutando somente o chiado da nossa respiração, em silencioso respeito e observar aquele elegante casco, mesmo desmantelado por uma morte violenta, é ser tomado por grande emoção. E eu senti isto...”


Nestor Antunes de Magalhães – Setembro de 2010


Meu hobby - Plastimodelismo: