domingo, 6 de setembro de 2020

CONHECENDO O MODELO EM ESCALA DO USS GATO

 Olá amigos do Facebook. Estava em New London, Connecticut, EUA, com a finalidade de mergulhar no naufrágio do U 853, submarino alemão Tipo IX C/40 afundado em combate nas últimas horas do final da II Guerra Mundial. Era uma sepultura de guerra e estava no través da Ilha de Block Island, a 38 m, mas isto é outra história, já comentada aqui neste espaço e que voltarei descrever com mais detalhes futuramente.

Descobri que ali perto, do outro lado do Rio Thames, ficava outra cidadezinha, Groton, sede do notável Submarine Force Library & Museum, instituição de memória fundada em 1955 e como tema a Arma Submarina americana, o “Serviço Silencioso”, apelido dado pelos submarinistas da US Navy. O museu tem entrada franca, possui 33.000 peças no seu acervo e recebe 150.000 visitantes por ano.  O carro-chefe das exposições é o USS Nautilus, primeiro submarino de propulsão nuclear, lançado ao mar em 1954 e que, em 1958, atingiu o Polo Norte submerso. Passei a tarde no museu. Impressionante. 

Entretanto, o que gostaria de comentar hoje e com certeza será do gosto dos meus amigos modelistas, é um submarino classe Gato, com o lado boreste vasado, na escala 1:6 e suspenso no teto por cabos. Há um mezanino que permite ao visitante ver o interior do Gato nos seus diversos compartimentos, da proa a popa, na altura dos olhos. É um trabalho admirável nos seus mínimos detalhes. Lembrei que esta classe, junto com a Balao, foram as principais utilizadas pelos americanos na Guerra no Pacífico e se constituíram no flagelo da navegação japonesa.

Recordei também que havia visitado o USS Bowfin, um Balao  que é museu em Honolulu, Havaii e lido o eletrizante livro de Alex Kershaw, Fuga das Profundezas, que conta a história do infeliz USS Tang, um classe Balao que afundou com quase toda a tripulação ao ser atingido pelo seu último torpedo lançado e que retornou. Muito azar.

Que história!

O relato completo desta visita está no livro U Boats.













sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A PISTA DE DECOLAGEM DE SABURO SAKAI EM RABAUL

Olá amigos do Blog. Estava há uma semana em Rabaul, Papua-Nova Guiné, principal porto da ilha da Nova Bretanha e base japonesa durante a II Guerra Mundial. Na verdade, ele, o porto, ocupava a margem de uma enorme caldeira alagada de um vulcão, águas calmas, protegidas e profundas conhecida como Simpson Harbor. Rabaul possuía uma importante posição estratégica no sudoeste do Pacífico, detalhe que provocou uma constante chuva de bombas americanas.

Com o apoio eficiente da Kabaira Dive, operadora de mergulho sediada em Rabaul. havia já mergulhado nos naufrágios de um hidroavião biplano Mitsubishi F1M Pete, em três caças Zero e mais alguns cargueiros japoneses. Fizera ainda um detalhado tour em terra, oportunidade em que conheci o memorial do Montevideo Maru, navio lotado de prisioneiros australianos que foi torpedeado pelo submarino americano USS Sturgeon, museus militares, o Bunker de Yamamoto e os restos de dois bombardeiros japoneses, possivelmente um Betty e um Sally.

Mas tinha mais. Saburo Sakai foi o maior ás japonês que sobreviveu a II Guerra Mundial, com  200 combates e 64 vitórias aéreas. No seu eletrizante livro Samurai, ele descreve o período  que passou em Rabaul.

Ah, com a paciência dos guias, eu queria achar a pista de decolagem  que Sakai e seu grupo de caça, utilizaram em 1942. Isto era História.

Munido de mapas, fotos, livros e a descrição de Sakai, rodamos com a van da Kabaira por diversos locais para localizar a tal pista. A descrição abaixo foi fundamental e está no livro do piloto japonês:

“Rabaul parecia arrancada das profundezas do próprio inferno. Havia uma estreita e poeirenta pista, que iria servir ao nosso grupo. Era a pior pista que eu já tinha visto em qualquer lugar. Imediatamente atrás desta pista miserável, um vulcão medonho subia 700 pés para o alto. A cada poucos minutos, o chão tremia e o vulcão gemia profundamente, e então arremessava algumas pedras e uma grossa fumaça sufocante”.

Então encontramos! Caminhei pela pista de Sakai. Pedregosa, cheia de cinzas pretas e ao fundo, vi o tal vulcão. Um cheiro intenso de enxofre. Pensei em tudo que tinha acontecido ali. Uma emoção muito forte. Que história!

Este relato completo está no livro De Guadalcanal a Creta.

Foto aérea de Rabaul, Simpson Harbor e o vulcão.
Bombardeiro B-25 rasa a superfície de Simpson Harbor após atacar navio japonês.
Biplano Mitsubishi F1M Pete.
Caça Zero sobre fundo de areia, a 30 m de profundidade.

Flap aberto a 45° de um Zero emborcado.
Cockpit de um caça Zero a somente 4 m de profundidade.
O guia Steven mostra os destroços de um bombardeiro japonês na orla da selva.
Fotografando os destroços, possivelmente um bombardeiro Sally.
Memorial do Montevídeo Maru.
Pista de pouso de Sakai, com o vulcão ao fundo.
Com os eficientes guias da Kabaira Dive.

sábado, 22 de agosto de 2020

A CAVEIRA DO YAMAGIRI MARU - TRUK LAGOON

 Olá amigos do Blog. Estava em Truk Lagoon, Micronésia. Todos vocês sabem que esse arquipélago foi uma poderosa base japonesa durante a II Guerra Mundial, sendo bombardeada à extinção pelos americanos em 17 Fev 44. Muitos navios e aviões foram para o fundo da laguna e, atualmente, Truk é a capital mundial dos naufrágios.

A manhã tinha sido proveitosa pois havíamos mergulhado em um torpedeiro Nakajima B6N Tenzan “Jill” e no submarino I-169. A tarde fomos explorar o naufrágio do Yamagiri Maru, um belo paquete misto com 6.438 t de deslocamento e medindo 134 m de proa a popa. Quando do ataque, o infeliz Yamagiri foi metralhado e recebeu 2 bombas, afundando de popa, envolto em prodigiosa coluna de fumaça negra.  Doze tripulantes pereceram com o navio.

Alcançamos o paquete deitado sobre o costado de bombordo, a 30 m de profundidade.  Comigo estavam os dois guias, o inglês Patrick, e o meu dupla, o português Luis Mota. Havia muita vida no ferro, um festival de gorgônias, conchas zig-zag, esponjas, corais vermelhos, brancos e azuis. 

Penetramos o porão nº 5. Era enorme! Escuro! Havia uma pilha desordenada de colossais granadas de artilharia naval, calibre 356 mm, munição empregada pelos canhões dos encouraçados da classe Kongo. Sinalizei ao guia Tomo (havia apelidado ele de Dança-com-Lobos e o apelido tinha colado). Na véspera, ele tinha me dito que existiam nos naufrágios muitos restos humanos. Ah,  que Truk era um imenso cemitério de guerra e cada naufrágio, uma sepultura submarina. Eu até então não tinha visto nada. Por sinais, o guia falou:

-- Néster, vem comigo que vou te mostrar uma coisa. Respondi ok e penetramos o casario do navio. Nadamos os dois por um labirinto, onde pairava uma tênue névoa amarronzada, de meter medo.  Maldição! Minha curiosidade terminou rapidamente e, em seguida foi a coragem que vazou. Pelo caminho fomos envolvidos por uma escuridão tão intensa que quase se podia cortá-la à faca. Já o meu ânimo, há muito tinha sido roubado. Com o canto do olho reparei que a luz mortiça, minha referência, que indicava a escotilha por onde tínhamos entrado, estava sumindo; um calafrio. Senti que estávamos no coração sombrio do Yamagiri e já não sabia como voltar sozinho.  Mesmo assim, apesar da preocupação, continuamos avançando. No teto negro, entre franjas de vegetação marinha apodrecida, vi  um bolsão de ar aprisionado, sinal da passagem de outros mergulhadores. Sensação ruim de pensar que a minha vida dependia de outra pessoa. Penetramos então em um outro compartimento onde havia uma massa inextricável de ferros torcidos, cabos e enroscos, parcialmente iluminados pela lanterna do guia. Cheguei a sentir na boca o gosto de ferrugem e água salgada. Dança-com-Lobos então focou alguma coisa engastada entre os ferros do teto.

 Por Cristo! Era uma caveira e alguns ossos! Ela era marrom, ferrugenta, as órbitas estavam preenchidas com um lodo negro. Quem seria? Pobrezinho. Talvez este  marinheiro  tivesse sido colhido pela morte ao cumprir uma ordem, ao fechar alguma escotilha ou ao socorrer um camarada. Ali estava toda a indecência da guerra, o seu desperdício e sua inutilidade.

Pensei muito neste fato quando nadamos de volta à superfície. Dança-com-Lobos, à frente, parecendo divertir-se, enquanto eu, meio embasbacado, olhava as pontas dos dedos, brancas, como se não houvesse uma gota de sangue nelas. Que história!

Este relato completo e emocionante, é capítulo no livro De Truk a Narvik



Nadando da escuridão para a luz: um grande alívio 

 


Nosso guia em Truk, o experiente Tomo a quem apelidei de Dança-

com-Lobos




                   Ali estava toda a indecência da guerra, sua inutilidade e desperdício




Granadas de 356 mm espalhadas em desordem pelo porão




sábado, 15 de agosto de 2020

VISITA A KEROMAN 3 - LORIENT

Olá amigos do Blog. Estava em Quimperlé, uma pequena e graciosa vila medieval na região da Bretanha, França. Havia mergulhado no naufrágio do U 171, submarino alemão que afundara ao topar com uma mina ao largo da Ilha de Groix. Foi emocionante explorar os destroços a 42 m e ver, entre outros, um torpedo e o periscópio do U Boat.

 Era convidado do amigo e conhecido mergulhador francês Jean-Louis Maurette; estava morando na casa dele e isto foi muito bom. Ele me levou a Brest para conhecer o Musée National de La Marine, notável instituição de memória que ocupa um castelo. Lá está toda a história marítima da França e, além de um acervo primoroso, pude ver um submarino-de-bolso alemão conhecido como Seehund e outro nada convencional, o Neger. Em Brest também havia uma grande base de U Boats; vimos a distância pois era área militar da Marinha francesa e não foi possível entrar. Na manhã seguinte fomos até Lorient conhecer a famosa base de submarinos de Keroman, sede da 2ª Flotilha de Submarinos. Impressionante! Na verdade ali estão 3 grandes abrigos blindados, os principais, erguidos pelos alemães para proteger os U Boats das bombas Aliadas. São conhecidos como Keroman 1, 2 e 3. O último, o 3, foi construído em 1943 e nele tudo é colossal. Tem uma área de 24.000 m², mede 138 m de comprimento, 170 m de largura e 20 m de altura. O teto é uma blindagem de concreto com 7,40 m de espessura, resistente às mais pesadas bombas aéreas. A estrutura tem várias “garagens”, docas inundadas que abrigam 13 submarinos. Lembram do início do filme Das Boot? Pois é, igual. Paga-se uma entrada e logo os turistas se agrupam ao redor da guia. Na zona de reunião há um submarino francês em terra, convencional, classe Daphné, o Flore. Ele encanta os visitantes. 
Com a guia na frente, iniciamos nosso tour. Lembrei que estas bases na costa oeste francesa tinham enorme importância para o sucesso das operações dos U Boats no Atlântico. Entramos no bunker. Há portas blindadas de aço, escadas, suportes, salas, coisas que estão ali a mais de 75 anos. A água penetra em cada box e é fácil imaginar um U Boat atracado no cais. Tudo é História, está por toda a parte. A guia só falava francês e procurei sair do grupo e explorar por conta própria. Caminhando pelo teto, não vi nenhum dano ou marca de bombas, somente 3 torres de flak. Estavam sem as armas. Subi em uma delas. Pelo tamanho da base talvez fosse para um canhão de 20 mm em montagem quádrupla, tinha um campo de tiro excelente, tanto no ar como na superfície. 

Lembrei que dali tinha suspendido o U 507, um U Boat Tipo IX B que afundou 5 navios brasileiros em agosto de 42, empurrando o Brasil para a II Guerra Mundial. Terminamos nossa visita a Keroman 3 conhecendo a Villa Kerillon, casa onde a partir de Set 1940, serviu como QG do Almirante Doenitz por 17 meses, e um antigo pub, o Bar Le Margaret, local onde se reuniam os comandantes dos U Boats. Tomamos uma cerveja por lá sentindo todo o clima da Batalha do Atlântico. “Atacar, atacar! Avante, eia ao inimigo, ponham-no a pique! Navegamos contra a Inglaterra!” Que história!


   Com Jean-Louis Maurette e Hugues Priol no Musée National de La Marine


       Uma das salas de exposição do Musée National de La Marine




                   Um dos bunkers do complexo de Keroman 3


 
                                           Abrigo principal de Keroman 3




      Submarino alemão Seehund, valiosa peça do acervo do Musée            National de La Marine


    Submarino convencional classe Daphné, o Flore, no trilho que         puxava os U Boats para o seco


                     Interior de um dos boxes em Keroman 3



Abrigava dois U Boats flutuando



           Com Jean-Louis Maurette em frente ao bunker principal de     Keroman 3



               Nossa guia aguarda atenta junto a uma porta blindada



  No teto de Keroman 3


                               Lembram do filme Das Boot? Pois é, igual



                                          Torres de flak no teto de Keroman 3




Interior de uma torre de flak. Ao fundo, a saída para o mar



                             Baixa-mar em Loriant



                  Villa Kerillon, o QG do almirante Doenitz


 

Brindando Keroman 3 no Bar Le Margaret com o amigo francês Jean-Louis Maurette, Lorient

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

CONTATO COM O AUTOR, COMENTÁRIOS, SUGESTÕES E COMPRA DE LIVROS: E-MAIL ULISSESS18@YAHOO.COM.BR

 Olá amigos do Blog. 

Lembro a todos que ainda tenho um lote de 79 livros de Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História pelo preço unitário de R$62,00, incluído nesse valor a remessa postal. Reserve o seu exemplar pelo e-mail ulissess18@yahoo.com.br. Também por este canal estarei recebendo comentários e sugestões. Saudações.

                                                                  Nestor Magalhães 


   

                                                                Nestor Magalhães

NAVEGANDO NO NIPPON MARU II PARA PELELIU

 

Olá amigos do Blog. Estava em Palau, pequeno país insular da Micronésia, com 460 km² de superfície e formado por 8 ilhas principais. Durante a II Guerra Mundi Olá amigos do Blog. Estava em Palau, pequeno país insular da Micronésia, com 460 km² de superfície e formado por 8 ilhas principais. Durante a II Guerra Mundial, fora uma importante base logística-operacional japonesa.

Havia al, fora uma importante base logística-operacional japonesa.

Havia encerrado uma sequência de mergulhos em naufrágios de navios japoneses, sempre com apoio impecável da operadora Fish´n Fins. Desta forma, visitara os Navio dos Capacetes, Iro, Amatsu Maru, Chuyo Maru, Nagisan Maru, Gozan Maru e outros mais. Até um hidroavião japonês Aichi E1 3A Jake e um bombardeiro americano B-24. Que aventura!

Queria mais. Planejei então ir até a ilha de Peleliu, local a sudoeste de Palau e onde havia acontecido uma feroz batalha, talvez uma das mais sangrentas da Guerra no Pacífico. Os americanos acreditavam que iram conquistar a ilha em 4 dias, levaram mais de 2 meses. Tiveram que exterminar um por um todos os soldados do fanático e aguerrido Cel Kunio Nakagawa.

Para chegar a Peleliu deveria pegar o ferry, o Nippon Maru II, uma embarcação com cerca de 26 m, que partia de um cais na ilha Malakal. O Nippon atracou no cais com  3 horas de atraso e foi tomado de assalto por uma multidão de micronésios que quase me levaram de arrasto para bordo. Parecia que fugiam dos japoneses há 74 anos atrás. Observei o capitão, um tipo possante, de aspecto desmazelado, com cara de pirata chinês do século XVIII. Era cheio de autoridade. Só  faltava o sabre e a pistola enfiados na cintura.

Sentei a boreste, no costado junto ao cais, local onde tentava embarcar um senhor com mais de 70 anos totalmente embriagado. Tinha tomado todas. Trocava as pernas titubeante, e rodopiava entre o concreto e o costado do ferry. Poderia cair na fenda entre o casco e o cais e morrer esmagado. Não deu outra! Droga! Peguei-o pelo braço no momento exato da queda e foi direto para o convés. Mole e anestesiado, não se machucou, agradecendo com um bafo medonho e indo deitar em um banco perto da popa onde dormiu de imediato.

Era quase noite quando zarpamos. Fazia um calor delicioso e pude observar um crepúsculo avermelhado no Pacífico de rara beleza. Logo se fez noite e senti que o Nippon navegava muito rápido. Bem, o pirata chinês devia saber o que fazia. Conhecia de cor esta rota, pensei.

-- Rooooffff bruuummmmm!!! O ferry vibrou de proa a popa em um estrépito pavoroso. Um solavanco de dar medo.

Maldição, batemos em alguma coisa! E de imediato começou uma gritaria entre os passageiros, algumas crianças e mulheres chorando. Somente o ancião bêbado estava bem, dormia a sono solto. Roncando de boca aberta, lá na popa. Lembrei do Príncipe de Astúrias, navio espanhol que afundou em 1916 ao largo de Ilhabela. Um pavoroso naufrágio.

Durante 15 minutos a tripulação do ferry manobrou a embarcação para escapar do enrosco de coral. Toda a força à frente, toda a força à ré. Achei que o casco não iria resistir ao coral afiado, mas nos safamos.

Chegamos no porto de Peleliu tarde da noite. Foi um alívio. No que o ferry encostou, o bêbado acordou e vendo o nervosismo dos passageiros, veio perguntar para mim o que havia acontecido. Que história!

Este relato está completo no capítulo 5 do livro De Guadalcanal a Creta. Reserve o seu exemplar pelo e-mail ulissess18@yahoo.com.br

                                  A llha Peleliu ficava a sudoeste em Palau



                                                      Mapa do desembarque americano



                           O Nippon Maru II no cais da ilha Malakal, Palau

 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O CAPACETE M 40 DE STALINGRADO


Olá amigos do Blog. Estava em Volgogrado, antiga cidade de Stalin ou...Stalingrado. Para alguns autores, local onde ocorreu a mais terrível batalha da história da Humanidade e o ponto de inflexão do desenlace da II Guerra Mundial. Havia embarcado em Moscou, num velhusco e meio comunista trem. Foram 20 horas de viagem através de uma planície interminável, monótona, colossal. Lembrei do livro de Otto Skorzeny onde ele descreve a alma russa: “...é profunda, variável e espantosa. Exatamente igual às suas imensas estepes, aos seus gigantescos rios, às inclemências do seu clima e a angustiante visão das suas paisagens.”
Fui recebido na estação pelo meu amigo Marcílio Dias, Suboficial da Reserva da FAB e sua esposa russa Inga. Ambos moravam na cidade e foram prestimosos guias durante o período que fiquei por lá. Visitamos diversos museus, sítios históricos, monumentos e memoriais. Graças a eles, molhei minhas mãos no Volga, caminhei pela terra parda e plana onde manobrou o 4º Exército Panzer e combateu em 1942, o 6º Exército de Paulus. Uma imersão total, emocionante e extraordinária na História.
Mas buscava um “gran finale”. Queria um capacete de aço alemão, um icônico Stahlhelm, uma apreciada relíquia de guerra. O Marcílio me levou a um mercado. Havia de tudo ali. De peças de trator a caviar. Vi em uma gaiola um coelho gigantesco, como o coelho do conto As Aventuras de Alice no País das Maravilhas. O pobre animal ocupava toda a gaiola. Para ser simpático, elogiei o coelho para o vendedor, um tipo possante, cabelo cortado à máquina, muito curto e com cara de vilão de filme do 007.
- É para comer! Respondeu ele com um resmungo.
O meu guia, muito esperto e fluente em russo, descobriu logo uma barraca onde poderia conseguir o capacete. Não tinha, mas o barraqueiro, um garimpeiro de campo de batalha, prometeu trazer um capacete no dia seguinte, o quê de fato ocorreu. Paguei 700 Rublos pela relíquia. Era um capacete de aço M 40, enferrujado, ainda com restos da tinta verde, pedaços de couro da carneira e um punhado da terra negra de Stalingrado. Hoje este capacete é a principal e mais valiosa peça da minha coleção. Que história!

Esta jornada completa está no livro U Boats.


Capacete alemão M 40


sábado, 18 de julho de 2020

MERGULHO COM TUBARÕES EM TRUK LAGOON

Olá amigos do Blog. Continuava em Truk Lagoon, a Capital Mundial dos Naufrágios. Como todos vocês já sabem, neste arquipélago paradisíaco, existia uma poderosa base japonesa durante a II Guerra Mundial. Ela foi bombardeada à extinção por um enxame de quase 500 aviões americanos, baseados em 9 porta-aviões. Era a Operação Chuva de Granizo e aconteceu nos dias 17 e 18 Fev 44. Foi algo devastador. Mandaram para o fundo da laguna 12 belonaves e 32 mercantes. Também 275 aeronaves japonesas foram destruídas, a maioria no solo. Truk ficou fora de combate pelo resto da guerra.
Havíamos mergulhado com nossos guias na véspera, nos naufrágios do San Francisco Maru e em um torpedeiro Kate. O próximo mergulho seria diferente. O capitão Higgs fez um rápido briefing e nos informou que ocorreria entre tubarões. Não acreditei muito pois até então não tinha visto nenhum destes peixes.
Alcançamos o fundo com 26 m. O assoalho marinho era arenoso, com blocos de coral espaçados e algumas cabeleiras de algas, ali e acolá. Existia muita vida marinha e alguns minutos depois começaram a aparecer tubarões. Não havia nada de especial naquele local mas surgiam cada vez mais tubarões, de todos os tamanhos, que giravam continuamente em sentido horário. Passavam muito perto da gente. Nosso guia, Dança com Lobos, colocou uma cabeça de peixe em um pequeno saco de lona que, positivo e preso a um lastro, foi atacado diversas vezes. Interessante. Quando o tubarão mordia o saco e sacudia a cabeça como um cachorro, fechava os olhos através de uma pálpebra horizontal. Vi isto na minha frente, muito perto mesmo. Minha nossa!
A temperatura da água era de 29 ºC, a visibilidade de 25 m e quando atingimos os 34 min de tempo de fundo, Dança com Lobos determinou o fim do mergulho. Antes, pegou um espeto sem cabo, uma tira de borracha que presa ao polegar e esticada, virou um improvisado arpão.
Por sinais disse que iria caçar seu almoço. Apontou então e disparou o espeto que foi cravar em um infeliz e colorido peixe. O bicho estrebuchando e largando sangue me deixou muito preocupado e foi uma subida angustiosa, sempre olhando para baixo e para trás. Bem devagarinho...Que história!

Esta jornada completa está no livro De Truk a Narvik.


Começaram a aparecer os tubarões, vindos de todas as direções

O saco de lona com a isca

Vinham também por cima

Pelos lados

Entre os corais

Não havia nada de especial naquele lugar

Este era grande e veio reto na minha direção

Passou junto

Um fundo arenoso e com alguns blocos de coral, nada de especial

Animais elegantes

Entre os mergulhadores

Dança com Lobos, o nosso guia, prepara a isca no saco

Um mergulho memorável
Algumas fotos sub foram tiradas pelos meus duplas, o Luís Mota e o Patrick McGreth